O Fundo Monetário Internacional (FMI) defendeu o fim de vários benefícios fiscais dirigidos aos jovens e alertou para os desequilíbrios no mercado imobiliário português, enquanto o Banco Central Europeu (BCE) continua a retirar liquidez do sistema financeiro.
Em paralelo, os bancos portugueses mantêm uma postura prudente, preferindo reforçar depósitos junto do BCE em vez de expandirem o crédito.
As duas análises traçam um retrato de uma economia pressionada por custos elevados, acesso à habitação cada vez mais difícil e um sistema financeiro que começa a adaptar-se ao novo ciclo monetário europeu.
FMI quer fim do IRS Jovem e critica apoios à habitação
No relatório divulgado após a missão técnica a Portugal, o FMI recomenda que o Governo reverta o modelo atual do IRS Jovem. A instituição considera que este benefício fiscal aumenta os custos para o Estado e não demonstra resultados concretos na retenção de jovens no país.
O organismo defende ainda que os apoios à compra de casa, incluindo garantias públicas e isenções fiscais, acabam por alimentar a procura num mercado já marcado por escassez de oferta. Segundo o FMI, estas medidas podem agravar os desequilíbrios no imobiliário ao contribuírem para a subida dos preços.
A posição surge numa altura em que muitos jovens continuam a recorrer ao crédito habitação com prazos longos e prestações elevadas. Neste contexto, fatores como a TAEG tornam-se cada vez mais relevantes para avaliar o custo real dos empréstimos.
Construção e arrendamento no centro das soluções
Para o FMI, a prioridade deve passar pelo aumento da oferta de casas. O organismo sugere acelerar a construção de novas habitações e incentivar o arrendamento de longa duração, incluindo imóveis atualmente devolutos ou usados para alojamento local.
O relatório recomenda também uma maior aposta na habitação social e em apoios direcionados para famílias de rendimentos baixos e médios. Ao mesmo tempo, defende mudanças na tributação imobiliária, reduzindo o peso dos impostos sobre transações e reforçando impostos recorrentes sobre património.
O objetivo passa por melhorar a mobilidade habitacional e criar um mercado mais equilibrado. Ainda assim, o FMI alerta que qualquer intervenção deve evitar estímulos excessivos à procura num contexto de falta de oferta.
BCE continua a retirar liquidez do sistema financeiro
Enquanto o FMI aponta fragilidades estruturais da economia portuguesa, o Banco de Portugal revelou que os bancos nacionais continuam a colocar grandes volumes de liquidez no BCE, apesar da descida das taxas de juro.
Segundo o Relatório da Implementação da Política Monetária 2025, o excesso de liquidez da banca portuguesa caiu de 34 mil milhões para 25 mil milhões de euros ao longo do ano. Ainda assim, os bancos mantiveram uma média de 28 mil milhões depositados junto do BCE.
Este comportamento mostra que as instituições financeiras continuam mais focadas na preservação de liquidez do que na expansão do crédito. Apesar da redução das taxas diretoras, a concessão de novos financiamentos permanece relativamente prudente.
Para muitas famílias, isso pode traduzir-se numa análise mais rigorosa dos pedidos de crédito, sobretudo em indicadores ligados ao risco financeiro e ao histórico bancário, como o credit score.
Crédito continua condicionado pela incerteza
O BCE reduziu as taxas diretoras ao longo de 2025, mas os bancos continuam cautelosos devido ao contexto económico internacional, marcado pela inflação energética e pelas tensões geopolíticas.
O Banco de Portugal sublinha que as instituições mantêm elevados níveis de ativos de garantia e capacidade de acesso à liquidez, mas optam por não recorrer intensivamente ao crédito do Eurosistema. Em vez disso, continuam a privilegiar reservas junto do banco central.
Ao mesmo tempo, a redução gradual do balanço do BCE deverá obrigar os bancos europeus a recorrer mais ao mercado para se financiarem. Isso poderá aumentar a concorrência por liquidez e alterar as condições de financiamento disponíveis para empresas e famílias.
Mercado imobiliário e crédito sob maior pressão
A combinação entre menor liquidez, custos de financiamento mais elevados e desequilíbrios no mercado habitacional poderá tornar o acesso ao crédito mais exigente nos próximos anos.
O FMI considera que o foco deve estar em melhorar a produtividade da economia e aumentar a oferta de habitação, enquanto o BCE continua a normalizar a política monetária após anos de estímulos extraordinários.
Para os consumidores, este cenário reforça a importância de comparar condições de financiamento, analisar encargos totais e acompanhar indicadores como a TAN nos contratos de crédito, sobretudo numa fase em que o mercado poderá tornar-se mais seletivo.
Apesar disso, tanto o FMI como o Banco de Portugal reconhecem que o sistema financeiro português continua estável, ainda que mais prudente perante o atual contexto económico europeu.