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Rafaela Guerra
Escrito por Rafaela Guerra

Licenciada em Contabilidade e Administração, sou especialista em gestão financeira e marketing. Procuro ajudar os leitores a acompanhar a atualidade e a melhorar a sua literacia financeira.

Imobiliário resiste à guerra, mas inflação, juros e salários baixos aumentam pressão

Dois meses após o início da guerra no Médio Oriente, o impacto no mercado imobiliário português continua a ser sobretudo indireto. Apesar da escalada geopolítica já se refletir nos preços da energia e na volatilidade financeira, promotores e mediadores consideram que o setor mantém, para já, alguma estabilidade.

 Ainda assim, o contexto de inflação, subida de juros e salários baixos está a reforçar a cautela de famílias e investidores.

O ambiente atual é marcado por decisões mais ponderadas. A incerteza não travou a procura, mas está a alongar os prazos de decisão e a aumentar o nível de exigência de quem compra. Ao mesmo tempo, o mercado continua sustentado por um desequilíbrio estrutural entre oferta e procura, que impede correções mais significativas nos preços.

Inflação e juros no centro das preocupações

Se há consenso entre os profissionais do setor, é que o principal risco não está na guerra em si, mas nos seus efeitos económicos. A inflação e as taxas de juro são hoje os fatores mais determinantes para o comportamento do mercado.

A subida recente das taxas Euribor já começou a refletir-se no custo do crédito habitação, pressionando as prestações mensais. Para muitas famílias, isto traduz-se numa maior dificuldade de acesso ao financiamento, sobretudo num país onde os salários continuam abaixo da média europeia.

Neste contexto, o credit score ganha ainda mais relevância, já que os bancos tendem a ser mais seletivos na concessão de crédito em períodos de maior incerteza.

Além disso, a expectativa de políticas monetárias mais restritivas por parte do Banco Central Europeu está a reforçar a prudência. Mesmo sem decisões imediatas, a simples antecipação de possíveis subidas de juros já influencia o comportamento de compradores e investidores.

Custos de construção e efeito dominó

Outro dos impactos mais visíveis está nos custos de construção. A dependência de energia e matérias-primas torna o setor particularmente sensível a choques externos. Qualquer perturbação nas cadeias logísticas pode traduzir-se em aumentos de preços, dificultando a viabilidade de novos projetos.

Nos últimos anos, os custos já acumularam subidas significativas, criando um “novo normal” no setor. Agora, o risco é que a atual conjuntura prolongue essa tendência. Em muitos casos, a margem entre o custo de construção e o preço que o mercado consegue suportar está cada vez mais estreita.

Este cenário não só limita a oferta futura como também contribui para manter os preços elevados, agravando o problema de acessibilidade à habitação.

Famílias mais cautelosas e estratégias de adaptação

Do lado da procura, o impacto faz-se sentir sobretudo ao nível da confiança. As famílias continuam interessadas em comprar casa, mas estão mais prudentes. O tempo de decisão aumentou e há uma maior preocupação com a estabilidade financeira a médio prazo.

Perante prestações mais elevadas, algumas famílias começam a procurar alternativas para gerir o esforço financeiro.

Soluções como o crédito consolidado surgem como forma de reorganizar encargos e ganhar margem no orçamento mensal, enquanto outros optam por transferir crédito habitação para condições mais favoráveis, tentando mitigar o impacto da subida dos juros.

Este comportamento revela uma adaptação progressiva ao novo contexto económico, onde a gestão do risco financeiro passa a ser central nas decisões das famílias.

Mercado resiliente, mas sensível à confiança

Apesar das pressões, o mercado imobiliário português continua a demonstrar resiliência. A procura mantém-se relativamente robusta e Portugal continua a ser visto como um destino seguro para investimento, especialmente em períodos de instabilidade global.

No entanto, essa resiliência depende em grande medida da confiança. Qualquer agravamento prolongado da inflação ou das taxas de juro poderá ter efeitos mais visíveis, tanto na procura como no volume de transações.

Para já, o setor vive um momento de transição. A guerra ainda não teve um impacto direto significativo no imobiliário, mas está a criar as condições para mudanças mais profundas.

Num contexto de salários estruturalmente baixos, o equilíbrio entre acessibilidade e sustentabilidade do mercado continuará a ser um dos principais desafios nos próximos meses.