Os juros no crédito à habitação voltaram a subir em março, interrompendo uma trajetória de descida que se prolongava há mais de dois anos. Ao mesmo tempo, o Governo decidiu reforçar a garantia pública destinada a jovens, numa tentativa de facilitar o acesso à compra de casa num contexto de preços elevados.
Estas duas tendências refletem um momento de mudança no mercado, marcado por custos de financiamento mais elevados e por medidas públicas que procuram responder às dificuldades no acesso à habitação.
Subida dos juros interrompe ciclo de descidas
A taxa de juro implícita no crédito habitação aumentou para 3,088% em março, registando a primeira subida desde o início de 2024. Este aumento, ainda que ligeiro, interrompe um ciclo de 25 meses consecutivos de descidas.
A evolução está relacionada com a subida das taxas Euribor, influenciada pelo contexto internacional, nomeadamente tensões geopolíticas que levaram os mercados a antecipar uma política monetária mais restritiva na zona euro.
O impacto foi sentido nas famílias. A prestação média da casa subiu para 402 euros, o valor mais elevado em mais de um ano. Deste total, cerca de 196 euros correspondem a juros e 206 euros à amortização de capital, o que evidencia o peso significativo do financiamento no orçamento mensal.
Prestações aumentam com mais dívida e custos
Para além da subida dos juros, o aumento das prestações está também ligado ao crescimento do capital em dívida. Em março, o valor médio ultrapassou os 77 mil euros, refletindo a evolução dos preços da habitação.
Nos novos contratos, apesar de uma ligeira descida das taxas no primeiro trimestre, a prestação média fixou-se perto dos 700 euros, representando uma subida significativa face ao ano anterior.
Este cenário continua a pressionar os orçamentos familiares, sobretudo num contexto em que muitos agregados já apresentam uma Taxa de Esforço elevada. Pequenas variações nas taxas podem traduzir-se em aumentos relevantes na prestação mensal.
Garantia pública reforçada para jovens compradores
Em paralelo, o Governo decidiu reforçar a garantia pública destinada a jovens até aos 35 anos, aumentando o montante total para 2.300 milhões de euros. Esta medida permite financiar a compra de casa sem necessidade de entrada inicial.
A adesão tem sido significativa. Em 2025, esta solução representou uma parte relevante dos contratos de Crédito Habitação celebrados por jovens, demonstrando o seu impacto no mercado.
Ao permitir financiamento até 100% do valor do imóvel, através de um rácio LTV (Loan-to-Value) elevado, a medida elimina uma das principais barreiras à compra, que é a poupança inicial necessária para dar entrada.
Procura elevada justifica aumento do apoio
O reforço agora anunciado surge na sequência da forte procura. Grande parte do montante inicialmente disponibilizado já tinha sido utilizado, o que levou o Governo a aumentar o financiamento disponível.
A medida está a ser aplicada em todo o território, com maior expressão em regiões onde os preços das casas são mais baixos e compatíveis com os limites definidos.
Este apoio junta-se a outros incentivos, como benefícios fiscais para a compra da primeira habitação, reforçando a estratégia de facilitar o acesso à casa própria entre os mais jovens.
Mercado entre custos mais altos e maior acesso
A conjugação entre subida dos juros e reforço dos apoios públicos evidencia um mercado em ajustamento. Por um lado, o aumento dos custos de financiamento pressiona as famílias, por outro, as medidas públicas procuram mitigar essas dificuldades.
A evolução das taxas de juro será determinante nos próximos meses, podendo influenciar tanto as prestações como a procura por habitação.
Num contexto de incerteza internacional e preços elevados, o acesso à habitação continuará a depender do equilíbrio entre condições de crédito, rendimentos das famílias e políticas públicas de apoio.