O contexto económico em Portugal e na zona euro continua a pressionar as decisões financeiras das famílias, com impacto direto no acesso à habitação, na capacidade de poupança e na relação com a banca.
Dados recentes mostram uma combinação de fatores: subida dos custos no imobiliário, redução da poupança e mudanças nos critérios de escolha de produtos financeiros.
Neste cenário, os portugueses revelam um comportamento cada vez mais racional na gestão das finanças, ajustando prioridades perante um ambiente marcado por preços elevados e maior incerteza económica.
Condições do crédito habitação ganham peso na escolha do banco
Um dos sinais mais claros desta mudança está na forma como os portugueses escolhem o banco principal. Segundo um estudo da consultora Oliver Wyman, 21% dos clientes em Portugal valorizam sobretudo condições favoráveis no crédito habitação, mais do dobro da média europeia (8%).
Além disso, 17% dos inquiridos apontam os custos associados, como comissões e spreads, como fator decisivo. Este foco nas condições financeiras reflete um contexto em que comprar casa exige maior planeamento e comparação de propostas, sobretudo num mercado com preços historicamente elevados.
O estudo revela ainda que os portugueses combinam esta preocupação com uma forte abertura ao digital. Cerca de 84% preferem utilizar aplicações ou plataformas online para gerir o dia a dia financeiro, enquanto 83% mostram disponibilidade para interações remotas com gestores bancários.
Ainda assim, a confiança no contacto presencial mantém-se relevante: 64% consideram essencial uma reunião física para decisões mais complexas, como a contratação de crédito, o que demonstra um equilíbrio entre digitalização e proximidade.
Poupança das famílias recua na zona euro
Ao mesmo tempo, a capacidade de poupança das famílias está a diminuir. Na zona euro, a taxa de poupança caiu para 14,4% no quarto trimestre de 2025, abaixo dos 14,8% registados no mesmo período do ano anterior, segundo o Eurostat.
Esta descida resulta de um aumento do consumo superior ao crescimento do rendimento disponível. Enquanto o consumo privado subiu 1,2%, o rendimento aumentou apenas 0,8%, evidenciando uma maior pressão sobre os orçamentos familiares.
Em paralelo, a taxa de investimento das famílias aumentou ligeiramente, passando de 8,5% para 8,8%, o que indica que, apesar da redução da poupança, continua a existir algum esforço na aplicação de recursos, nomeadamente em habitação.
Este enquadramento ajuda a explicar por que motivo as famílias estão mais sensíveis às condições de financiamento e mais atentas à sua taxa de esforço, sobretudo em decisões de maior impacto financeiro.
Arrendar quarto torna-se alternativa cada vez mais comum
No mercado habitacional, as dificuldades de acesso continuam a intensificar-se. Perante o aumento dos preços das casas, muitas pessoas estão a optar por arrendar quartos como solução mais acessível e flexível.
Ainda assim, também este segmento está a encarecer. No primeiro trimestre de 2026, os preços dos quartos para arrendar subiram 8% face ao mesmo período do ano anterior.
Lisboa continua a liderar como a cidade mais cara, com rendas medianas de cerca de 550 euros mensais, seguida pelo Funchal (500 euros) e Porto (450 euros). Já as opções mais económicas encontram-se na Guarda (210 euros) e em Bragança (225 euros).
A subida dos preços foi transversal a várias cidades, com destaque para Bragança (+13%), Funchal e Guarda (+11%) e Lisboa (+10%). Ainda assim, no trimestre mais recente, o mercado mostrou sinais de estabilização, com valores a manterem-se inalterados em várias localidades.
Procura por soluções mais flexíveis e adaptação ao contexto
O arrendamento de quartos deixou de ser uma solução exclusiva para estudantes e passou a abranger também jovens trabalhadores, pessoas solteiras e até famílias com dificuldades em suportar rendas mais elevadas.
Esta tendência reflete um mercado imobiliário pressionado por falta de oferta e preços elevados, enquanto a redução da poupança limita a capacidade de entrada na compra de casa.
Perante este cenário, os portugueses estão a adaptar as suas decisões financeiras: dão mais importância às condições de financiamento, recorrem a soluções habitacionais alternativas e utilizam cada vez mais ferramentas digitais para gerir o orçamento.
No entanto, a confiança continua a ser um fator central, sobretudo em decisões de maior risco, como a contratação de crédito. É neste equilíbrio entre prudência, adaptação e inovação que se desenha o comportamento financeiro das famílias em 2026.