Intermediação de Crédito
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Rafaela Guerra
Escrito por Rafaela Guerra

Licenciada em Contabilidade e Administração, sou especialista em gestão financeira e marketing. Procuro ajudar os leitores a acompanhar a atualidade e a melhorar a sua literacia financeira.

Banco de Portugal exige maior controlo do risco nos créditos face a incerteza global

O Banco de Portugal (BdP) quer que as instituições financeiras reforcem a análise do risco associado ao crédito, tendo em conta fatores externos como conflitos geopolíticos e instabilidade económica. A recomendação surge num contexto de maior volatilidade nos mercados e de incerteza sobre a evolução da economia.

As novas prioridades de supervisão microprudencial para este ano colocam o foco na resiliência do sistema bancário e na capacidade de antecipar dificuldades no reembolso dos empréstimos por parte de famílias e empresas.

Avaliação do risco deve ser contínua e mais rigorosa

O BdP defende que os bancos devem implementar um sistema de monitorização do risco de crédito mais robusto e eficaz. Este acompanhamento deve ser feito ao longo de todo o ciclo de vida dos contratos, permitindo identificar sinais de deterioração de forma atempada.

Um dos pontos centrais passa pela análise da sensibilidade dos clientes a fatores externos, como alterações nas condições económicas ou choques internacionais. O objetivo é perceber até que ponto esses elementos podem comprometer a capacidade de pagamento.

Esta abordagem é particularmente relevante em produtos como o Crédito Habitação, onde os contratos têm longa duração e estão mais expostos a variações económicas ao longo do tempo.

Fatores geopolíticos aumentam incerteza no crédito

O banco central alerta que os conflitos internacionais e as tensões no comércio global têm aumentado significativamente a incerteza económica. Esta instabilidade pode traduzir-se numa degradação das condições macroeconómicas e, consequentemente, numa maior dificuldade no cumprimento dos créditos.

Neste contexto, as instituições devem acompanhar com maior atenção os setores e clientes mais vulneráveis, ajustando as suas estratégias de concessão de crédito.

A monitorização deverá incluir também o reconhecimento adequado de imparidades, garantindo que eventuais perdas são identificadas e refletidas nas contas das instituições.

Pressão concorrencial influência preços do crédito

Outro dos pontos destacados pelo BdP prende-se com a necessidade de garantir práticas adequadas na definição dos preços dos empréstimos. O regulador alerta para uma maior pressão concorrencial em alguns segmentos, que tem levado à descida dos preços em novas operações.

Neste cenário, é essencial que os bancos assegurem que o preço do crédito, incluindo componentes como o Spread, reflete corretamente o risco associado a cada operação.

O BdP indica ainda que irá acompanhar situações em que sejam concedidos créditos abaixo do custo, exigindo justificação adequada por parte das instituições.

Supervisão reforçada sobre risco e governação interna

A atividade de supervisão irá também incidir sobre o chamado apetite pelo risco das instituições, ou seja, o nível de risco que estão dispostas a assumir. O BdP quer garantir que os órgãos de gestão acompanham de forma ativa os riscos mais relevantes, incluindo os de natureza geopolítica.

Será dada especial atenção ao papel das funções de controlo interno, consideradas essenciais para assegurar uma cultura de risco adequada no setor bancário.

Além disso, o regulador continuará a monitorizar o risco de taxa de juro e de spread na carteira bancária, num momento em que as condições de financiamento permanecem instáveis.

Digitalização e fraude também sob vigilância

Para além do risco financeiro, o BdP destacou a importância da segurança digital. A fraude externa, especialmente através de canais digitais, será uma das áreas prioritárias de intervenção.

As instituições serão chamadas a reforçar mecanismos de prevenção e a participar em ações de mitigação a nível setorial.

Paralelamente, o banco central continuará a acompanhar as estratégias de digitalização, incluindo o uso de inteligência artificial, garantindo que estes processos são acompanhados por mecanismos adequados de gestão de risco.

Objetivo é antecipar problemas no sistema financeiro

Com estas medidas, o Banco de Portugal pretende reforçar a capacidade do sistema bancário para responder a choques externos e evitar situações de incumprimento de crédito.

Neste contexto, os intermediários de crédito podem ajudar os consumidores a encontrar soluções mais ajustadas e a evitar situações de risco no acesso a financiamento. Ainda assim, em casos de dificuldades no pagamento, a inclusão na chamada lista negra do BdP pode limitar o acesso a novo crédito e agravar a vulnerabilidade financeira.

A antecipação de riscos e a monitorização contínua dos contratos surgem como elementos centrais para garantir a estabilidade financeira, num contexto marcado por incerteza económica e desafios globais.