Intermediação de Crédito
Voltar Voltar às Notícias
Rafaela Guerra
Escrito por Rafaela Guerra

Licenciada em Contabilidade e Administração, sou especialista em gestão financeira e marketing. Procuro ajudar os leitores a acompanhar a atualidade e a melhorar a sua literacia financeira.

Procura de crédito habitação pode abrandar apesar de forte adesão à garantia pública

A procura de crédito habitação na Europa e em Portugal deverá abrandar nos próximos meses, num contexto marcado pela subida dos custos de financiamento e por maior incerteza económica. Ainda assim, o mercado português continua a ser parcialmente sustentado pela forte adesão à garantia pública para jovens até aos 35 anos.

Segundo o Banco Central Europeu (BCE), a procura por crédito habitação na zona euro estabilizou no início de 2026, ficando abaixo das expectativas dos bancos. Esta evolução reflete sobretudo uma maior cautela dos consumidores, num ambiente em que o acesso ao crédito se torna mais exigente e as decisões de compra são adiadas.

A par disso, as instituições financeiras indicam que poderão registar uma ligeira redução na procura nos próximos meses, acompanhada por uma maior prudência na análise dos pedidos de financiamento.

Portugal mantém dinamismo com apoio público

Em Portugal, o comportamento foi distinto no arranque do ano, com um aumento da procura por crédito habitação. Uma das principais razões é a garantia pública para jovens, que tem permitido facilitar o acesso à compra de casa.

Até março, o programa já representava 24,3% dos contratos celebrados e 27,8% do montante total concedido. No total, foram assinados mais de 32 mil contratos ao abrigo desta medida, correspondendo a mais de 6,5 mil milhões de euros.

Os bancos já utilizaram cerca de 62% do montante atribuído pelo Estado, o que demonstra a forte adesão ao regime. Entre os jovens, o impacto é ainda mais significativo, com uma grande parte dos contratos a ser realizada com recurso à garantia pública.

Este mecanismo tem permitido ultrapassar uma das principais barreiras à entrada no mercado imobiliário: a necessidade de capitais próprios elevados para a compra de casa.

Condições de crédito tornam-se mais exigentes

Apesar deste apoio, o acesso ao crédito tende a tornar-se mais exigente. As instituições financeiras estão a reforçar a análise de risco, num contexto em que a incerteza económica e a evolução dos mercados energéticos continuam a influenciar o comportamento do setor.

O aumento dos custos de financiamento leva também a uma maior atenção ao impacto global do empréstimo. Indicadores como o custo total do crédito ao consumidor assumem maior relevância na comparação de propostas e na avaliação da capacidade de pagamento.

Em paralelo, algumas famílias começam a considerar soluções alternativas para reorganizar o seu financiamento, especialmente quando já possuem outros créditos em curso.

Jovens continuam a sustentar o mercado

Os jovens continuam a ser um dos principais motores do mercado de crédito habitação em Portugal. A garantia pública tem desempenhado um papel relevante na dinamização deste segmento, permitindo o acesso a financiamento em condições mais favoráveis.

No entanto, a evolução das taxas de juro poderá limitar parte deste efeito. O aumento das prestações mensais reduz a margem financeira das famílias e pode levar ao adiamento de decisões de compra.

Ao mesmo tempo, os bancos tendem a ser mais seletivos na aprovação de crédito, avaliando com maior rigor a estabilidade dos rendimentos e o perfil financeiro dos candidatos.

Procura deverá perder força nos próximos meses

As perspetivas apontam para um abrandamento gradual da procura de crédito habitação em Portugal. O Banco de Portugal antecipa uma redução no ritmo de novos contratos, sobretudo no segmento da habitação.

Este cenário está associado ao aumento dos custos de financiamento e à maior prudência dos consumidores perante um contexto económico mais incerto. Ainda assim, não são esperadas quebras abruptas, mas sim um ajustamento progressivo da atividade.

A evolução do mercado dependerá também do comportamento dos preços das casas, que continuam elevados em várias regiões, limitando a capacidade de compra de muitos agregados familiares.

Mercado ajusta-se a novo ciclo económico

Apesar das pressões atuais, o mercado de crédito habitação mantém-se ativo. A procura continua presente, embora mais sensível às condições financeiras e ao contexto económico.

A garantia pública para jovens, a escassez de oferta no mercado imobiliário e a necessidade estrutural de habitação continuam a sustentar a atividade.

Nos próximos meses, o setor deverá atravessar uma fase de ajustamento, marcada por maior seletividade na concessão de crédito e por decisões mais ponderadas por parte dos consumidores.

O comportamento do mercado será determinado pela evolução da inflação, pelas condições de financiamento e pela estabilidade do contexto internacional, num ambiente em que a incerteza continua a desempenhar um papel central nas decisões económicas.