O Banco de Portugal (BdP) reviu em alta as previsões para a Euribor e para a inflação em 2026, num contexto marcado pelas consequências económicas da guerra no Médio Oriente.
Apesar de manter a estimativa de crescimento da economia portuguesa, o banco central alerta que as condições de financiamento deverão tornar-se mais restritivas, travando o investimento na habitação e pressionando os custos associados ao crédito habitação.
Euribor sobe mais do que o previsto
As projeções atualizadas do BdP apontam para uma subida da Euribor a três meses de 2,2% em 2025 para 2,4% em 2026. Em 2027, a taxa deverá atingir 2,8%, recuando ligeiramente para 2,7% em 2028.
Face às previsões divulgadas em março, a Euribor foi revista em alta em 0,1 pontos percentuais para 2026 e em 0,2 pontos percentuais para 2027, refletindo as expectativas dos mercados de novas pressões inflacionistas e de uma política monetária mais restritiva.
Esta evolução tem impacto direto nos contratos de crédito habitação indexados à Euribor, sobretudo nos empréstimos com taxa variável. Uma subida das taxas de referência tende a aumentar a prestação da casa para muitas famílias, reduzindo simultaneamente a capacidade de financiamento dos novos compradores.
Por outro lado, a subida da Euribor poderá beneficiar alguns produtos de poupança, como os certificados de aforro, cuja remuneração está parcialmente ligada à evolução desta taxa.
Habitação perde dinamismo nos próximos anos
Perante o aumento dos custos de financiamento, o BdP prevê um abrandamento do investimento residencial. A Formação Bruta de Capital Fixo em habitação deverá crescer, em média, apenas 2,4% entre 2026 e 2028, abaixo dos 2,6% previstos em março.
A desaceleração é ainda mais evidente quando comparada com o crescimento de 5,5% registado entre 2024 e 2025, período em que o mercado beneficiou de condições de financiamento mais favoráveis.
Segundo o banco central, esta travagem resulta não apenas da subida das taxas de juro, mas também da desaceleração do rendimento disponível das famílias e do menor crescimento populacional esperado para os próximos anos.
Este cenário poderá levar muitos agregados familiares a rever decisões de compra, reforçando a importância de realizar uma simulação de crédito antes de avançar para a aquisição de habitação.
Inflação deverá atingir 3,1% em 2026
O BdP prevê agora que a inflação alcance 3,1% em 2026, acima do objetivo de 2% definido pelo Banco Central Europeu. A principal explicação está na subida dos preços da energia provocada pelo conflito no Irão e pelos constrangimentos temporários no abastecimento de matérias-primas energéticas.
Ainda assim, o banco central acredita que a inflação regressará gradualmente a valores próximos dos 2% nos anos seguintes, à medida que os efeitos da crise energética se dissipem.
O governador do BdP, Álvaro Santos Pereira, considerou que a recente subida das taxas diretoras do BCE foi uma decisão importante para evitar uma espiral inflacionista semelhante à observada em 2021 e 2022. Na sua perspetiva, a inflação funciona como um imposto invisível que reduz o poder de compra das famílias e das empresas.
Apesar disso, a maioria dos analistas consultados pelo BCE acredita que as taxas diretoras deverão permanecer inalteradas na reunião de julho. As previsões apontam para uma nova subida apenas em setembro, elevando a taxa de depósitos para 2,5%.
Economia mantém crescimento moderado
Apesar da revisão em alta da inflação, o BdP manteve a previsão de crescimento da economia portuguesa em 1,8% em 2026. Para 2027, estima uma expansão de 1,6%, seguindo-se um crescimento de 1,8% em 2028.
No plano das contas públicas, o banco central prevê um défice de 0,2% do PIB em 2026, agravando para 0,5% em 2027 e 2028. Estas projeções incorporam o impacto financeiro das medidas do pacote da habitação, dos apoios às famílias e empresas afetadas pelas tempestades e dos mecanismos de mitigação da subida dos preços da energia.
Ainda assim, Portugal deverá continuar entre os poucos países da área do euro com uma situação orçamental próxima do equilíbrio. Ao mesmo tempo, a dívida pública deverá continuar a descer, passando para 85,7% do PIB em 2026, 82,5% em 2027 e 79,5% em 2028.
Num contexto de juros mais elevados e inflação persistente, a evolução da taxa de esforço das famílias será um dos indicadores mais relevantes para acompanhar o mercado da habitação.
A conjugação entre custos de financiamento, rendimento disponível e preços das casas deverá continuar a influenciar tanto a procura de habitação como as condições de acesso ao crédito habitação nos próximos anos.