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Rafaela Guerra
Escrito por Rafaela Guerra

Licenciada em Contabilidade e Administração, sou especialista em gestão financeira e marketing. Procuro ajudar os leitores a acompanhar a atualidade e a melhorar a sua literacia financeira.

Salários em Portugal ganham poder de compra, mas inflação continua acima dos 3%

Os trabalhadores portugueses registaram ganhos reais de rendimento em 2025, beneficiando de aumentos salariais acima da inflação. Ao mesmo tempo, os dados mais recentes mostram que a inflação continua elevada em 2026, embora tenha estabilizado nos últimos meses.

Segundo a Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), Portugal integrou o grupo de países onde os salários cresceram em termos reais entre 2024 e 2025. Já o Instituto Nacional de Estatística (INE) confirmou que a taxa de inflação se manteve nos 3,3% em maio de 2026, sem alterações face ao mês anterior.

Salários cresceram acima da inflação em Portugal

A OCDE revela que os salários médios aumentaram em todos os países da organização em termos nominais entre 2024 e 2025. Em termos reais, ou seja, descontando o efeito da inflação, os salários subiram em 35 dos 38 países analisados.

Em Portugal, os salários nominais brutos avançaram 4,9% em 2025, enquanto os salários reais antes do IRS e das contribuições para a Segurança Social cresceram 2,6%. Este resultado traduz um aumento efetivo do poder de compra dos trabalhadores.

No conjunto da OCDE, a evolução dos salários nominais variou entre 0,7% na Suíça e 39,8% na Turquia, demonstrando diferenças significativas entre economias.

A organização destaca ainda que os aumentos salariais superaram a inflação na maioria dos países. Em 21 países, os salários reais cresceram até dois pontos percentuais, enquanto outros 14 países registaram aumentos superiores a esse valor.

Rendimento disponível também aumentou após impostos

Os ganhos não se limitaram aos salários brutos. A OCDE conclui que o rendimento real após impostos de um trabalhador solteiro sem filhos e com salário médio aumentou em 28 países, incluindo Portugal.

Pelo contrário, em 10 países este rendimento diminuiu. Segundo a organização, tal aconteceu porque os salários reais recuaram ou porque o aumento da carga fiscal anulou os ganhos salariais obtidos.

Portugal surge entre os países onde a taxa média de imposto sobre o rendimento do trabalho diminuiu ou permaneceu inalterada, ao mesmo tempo que os salários reais continuaram a crescer.

Este cenário contribuiu para um reforço do rendimento disponível das famílias, um fator relevante numa altura em que muitas enfrentam despesas mais elevadas com habitação, alimentação e serviços essenciais.

Salário mínimo aproxima-se do salário mediano

Os dados mais recentes mostram também que o salário mínimo nacional continua a aproximar-se do salário mediano em Portugal.

Em 2025, o salário mínimo aumentou 6,1%, atingindo os 870 euros, enquanto o salário mediano subiu 6,3%, para 958,8 euros. A diferença entre ambos reduziu para apenas 88,5 euros.

O chamado índice de Kaitz, que mede a relação entre o salário mínimo e o salário mediano, passou de 87% em 2019 para 91% em 2025.

Esta evolução contribuiu para reduzir as desigualdades salariais. O rácio entre os 10% de trabalhadores com salários mais elevados e os 10% com salários mais baixos caiu de 3,4 em 2010 para 2,4 em 2025.

Apesar disso, o Banco de Portugal alerta que a crescente concentração dos salários em torno do mínimo nacional pode levantar desafios relacionados com a produtividade e com os incentivos à progressão profissional.

Inflação mantém-se estável nos 3,3% em maio

Enquanto os salários registaram ganhos reais em 2025, os dados mais recentes mostram que a inflação continua a pressionar os orçamentos familiares em 2026.

O INE confirmou que a taxa de inflação se manteve em 3,3% em maio, o mesmo valor registado em abril. Também a inflação subjacente, que exclui alimentos não transformados e produtos energéticos, permaneceu nos 2,2%.

Entre os principais fatores de pressão destacam-se os produtos energéticos, cuja variação homóloga acelerou para 13,1%, acima dos 11,7% registados no mês anterior.

Por outro lado, os preços dos produtos alimentares não transformados desaceleraram, passando de 7,4% em abril para 5,7% em maio.

Transportes e habitação continuam a pressionar preços

Entre as categorias que mais contribuíram para a inflação destacam-se os transportes, os produtos alimentares e os restaurantes e alojamento.

A taxa de variação homóloga dos transportes subiu para 6%, enquanto a classe da habitação, água, eletricidade, gás e outros combustíveis acelerou para 3,5%, acima dos 2,9% observados em abril.

Em termos mensais, os preços aumentaram apenas 0,2% entre abril e maio, abaixo dos 1,3% registados no mês anterior.

No contexto europeu, o Índice Harmonizado de Preços no Consumidor situou-se em 3,1%, ficando ligeiramente abaixo da média estimada para a zona euro.

A evolução dos salários e da inflação continua a ser determinante para a capacidade financeira das famílias. Estes indicadores têm impacto direto no rendimento disponível, na gestão da prestação da casa e na avaliação da taxa de esforço, sobretudo para quem tem, ou está a considerar ter, um crédito habitação.