A incerteza económica global agravou-se nas últimas semanas, impulsionada pela subida dos preços da energia associada ao conflito no Médio Oriente. Este cenário já começa a refletir-se no setor imobiliário em Portugal, com impacto direto nas expectativas dos profissionais.
Num contexto marcado por falta de oferta e preços elevados, o mercado continua dependente de novas medidas públicas. No entanto, os efeitos ainda não se fazem sentir, contribuindo para um clima de maior cautela entre os agentes.
Confiança recua para níveis mais baixos desde 2024
O Índice de Sensibilidade do Setor Imobiliário (ISSI) revela uma nova quebra no segundo trimestre de 2026, atingindo os níveis mais baixos dos últimos dois anos.
No segmento de compra e venda, o indicador fixou-se em 71,6 pontos, abaixo dos 72,1 pontos no início de 2026 e dos 74,4 pontos registados há um ano. Trata-se do valor mais baixo desde o verão de 2024.
Já no arrendamento, a descida é ainda mais expressiva. O índice caiu para 53,2 pontos, o valor mais baixo desde que há registos disponíveis.
Venda de casas mantém perspetivas positivas no trimestre
Apesar da queda na confiança, a maioria dos profissionais antecipa um aumento da atividade no segundo trimestre de 2026. Cerca de 64,5% dos inquiridos acredita que vai vender mais casas, enquanto 25,7% prevê estabilidade e 8,6% aponta para uma redução das transações.
Este cenário é sustentado pela estabilidade do emprego e pela manutenção de apoios à compra de habitação, como a garantia pública e benefícios fiscais para jovens.
Ainda assim, a evolução da Taxa Euribor continua a pressionar o custo do crédito habitação, sobretudo nos contratos a taxa variável, refletindo a incerteza nos mercados financeiros e a evolução das taxas de juro.
Preços dão sinais de estabilização após subidas
Depois de vários períodos de forte valorização, as perspetivas para os preços das casas tornam-se mais moderadas. Mais de 56% dos agentes imobiliários acredita que os valores se vão manter estáveis ao longo do segundo trimestre de 2026.
Por outro lado, 36,3% dos profissionais antecipa novos aumentos, enquanto apenas 5,7% prevê uma descida dos preços.
Esta possível estabilização poderá estar relacionada com o aumento da oferta. Cerca de 66,5% dos agentes espera angariar mais imóveis para venda neste período, o que poderá aliviar parcialmente a pressão da procura. Ainda assim, os preços continuam elevados, sobretudo nos grandes centros urbanos.
Arrendamento revela maior incerteza e menor consenso
O mercado de arrendamento apresenta um cenário mais incerto, refletido nos níveis mais baixos de confiança dos profissionais.
Relativamente às rendas, 51,4% dos agentes acredita que se vão manter estáveis ao longo do segundo trimestre de 2026, enquanto 23,3% prevê aumentos e 15,5% aponta para descidas.
Os dados recentes mostram que as rendas estão em queda desde o início de 2026, embora com diferenças relevantes entre localizações, evidenciando um mercado desigual.
Expectativas divididas quanto a negócios e oferta
No que diz respeito ao número de contratos de arrendamento, as opiniões dividem-se. Cerca de 26,1% dos profissionais prevê um aumento, 29,8% aponta para estabilidade e 21,2% antecipa uma redução.
Também na oferta de casas para arrendar não existe consenso. Aproximadamente 28,2% espera aumentar as angariações, enquanto 27,8% prevê manutenção e 22% admite uma diminuição.
A elevada percentagem de respostas em branco, em ambos os indicadores, reforça o clima de incerteza que caracteriza este segmento do mercado.
Medidas fiscais podem influenciar evolução futura
O setor imobiliário poderá estar a aguardar a concretização das novas medidas fiscais do Governo para a habitação, que visam incentivar a colocação de imóveis no mercado.
Entre as principais alterações está a redução do IRS sobre rendimentos prediais de 25% para 10%, com potencial impacto no arrendamento.
Já a descida do IVA na construção de habitação a preços moderados deverá ter efeitos mais graduais, devido ao tempo necessário para desenvolver novos projetos.
Num contexto de custos de construção elevados e perda de poder de compra, o equilíbrio entre oferta e procura continuará a ser determinante para a evolução do mercado imobiliário em Portugal.