Intermediação de Crédito
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Rafaela Guerra
Escrito por

Licenciada em Contabilidade e Administração, sou especialista em gestão financeira e marketing. Procuro ajudar os leitores a acompanhar a atualidade e a melhorar a sua literacia financeira.

Habitação, impostos e mercado de trabalho revelam pressão crescente sobre famílias e jovens

Arrendar uma casa antes da venda pode fazer perder a isenção de IRS sobre mais-valias, mesmo que o domicílio fiscal se mantenha no imóvel. A Autoridade Tributária (AT) clarifica que o fator decisivo é a utilização efetiva da habitação e não apenas o registo administrativo.

A mesma lógica de pressão atravessa outros domínios da economia portuguesa, desde o mercado da habitação até às condições de trabalho dos jovens. Entre regras fiscais mais rígidas e dificuldades de acesso à casa, o impacto sente-se sobretudo nas famílias e na Geração Z.

Arrendamento antes da venda pode anular benefício fiscal

A AT esclareceu que um imóvel deixa de ser considerado habitação própria e permanente quando é arrendado, mesmo que o contribuinte mantenha a morada fiscal no local.

O caso analisado diz respeito a um contribuinte que arrendou a casa antes de a vender e questionou se poderia manter a isenção de IRS sobre as mais-valias através de reinvestimento. O Fisco conclui que não, por deixar de se verificar a utilização efetiva como residência principal.

Para beneficiar da exclusão de tributação, o imóvel deve ter sido habitação própria e permanente nos 12 meses anteriores à venda. Esse conceito implica que seja o centro da vida doméstica, onde se pernoita, se fazem refeições e se mantém a rotina familiar.

A AT reforça ainda que a isenção depende do cumprimento de várias condições, incluindo prazos de reinvestimento e comunicação na declaração de IRS. A mera manutenção do domicílio fiscal não é suficiente para garantir o benefício.

Crédito e habitação continuam a pesar no orçamento das famílias

Num contexto de maior pressão financeira, o recurso a soluções de financiamento mantém-se elevado entre os agregados familiares. O crédito à habitação continua a ser a principal forma de aquisição de casa, enquanto o crédito pessoal e o crédito consolidado têm sido usados para gestão de liquidez e reorganização de dívidas.

Em paralelo, o uso de cartões de crédito como complemento ao rendimento disponível tem vindo a aumentar em alguns perfis de consumidores, sobretudo perante o aumento do custo de vida e das despesas fixas com habitação.

Estes instrumentos financeiros tornam-se frequentemente uma forma de colmatar a diferença entre salários estagnados e encargos mensais crescentes.

Geração Z enfrenta dificuldades no acesso à habitação

Mais de metade da Geração Z continua a viver com os pais, segundo dados recentes sobre o mercado de trabalho em Portugal. A falta de autonomia habitacional está diretamente ligada ao peso das rendas e prestações no rendimento mensal.

Cerca de 55,8% dos jovens gasta mais de 40% do salário em despesas com habitação, o que limita a independência financeira e adia decisões como a compra de casa ou a constituição de família.

A pressão económica leva ainda muitos jovens a acumular várias fontes de rendimento. O estudo indica que quase um quarto já recorre a dois ou mais trabalhos para compensar o custo de vida.

Salário deixa de ser o principal fator de mudança

Apesar do descontentamento com os salários, a principal razão para mudar de emprego não é a remuneração. A falta de progressão na carreira surge como o fator dominante, apontado por mais de metade dos jovens.

A Geração Z procura sobretudo crescimento profissional, aquisição de competências e maior autonomia nas funções desempenhadas. A perceção de estagnação interna nas empresas é um dos principais motivos de rotatividade.

Além disso, muitos jovens consideram que o sistema de ensino não os preparou adequadamente para o mercado de trabalho, reforçando a sensação de desalinhamento entre formação e realidade profissional.

Flexibilidade torna-se fator decisivo no emprego

O teletrabalho consolidou-se como um benefício essencial para esta geração. Uma parte significativa dos jovens admite recusar propostas com salários mais elevados se isso implicar perder a flexibilidade laboral.

Este comportamento reflete uma mudança estrutural nas prioridades profissionais, onde o equilíbrio entre vida pessoal e trabalho ganha peso equivalente ou superior ao rendimento.

Mercado de trabalho e habitação continuam interligados

A pressão sobre o acesso à habitação, combinada com salários considerados insuficientes, está a redefinir escolhas profissionais e financeiras. A dificuldade em comprar ou arrendar casa influencia tanto a autonomia dos jovens como a sua estabilidade laboral.

No conjunto, os dados mostram um cenário em que fiscalidade, habitação e trabalho se cruzam cada vez mais, com impacto direto na capacidade de decisão das famílias e na mobilidade dos jovens no mercado.