Intermediação de Crédito
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Rafaela Guerra
Escrito por

Licenciada em Contabilidade e Administração, sou especialista em gestão financeira e marketing. Procuro ajudar os leitores a acompanhar a atualidade e a melhorar a sua literacia financeira.

BdP alerta para exposição à Euribor enquanto prazo médio do crédito habitação sobe para 33 anos

O Banco de Portugal considera que a maioria dos novos contratos de crédito habitação continuará exposta às oscilações da Euribor, apesar da crescente adesão às taxas mistas.

Ao mesmo tempo, o prazo médio dos novos empréstimos aproxima-se dos 33 anos, numa tentativa das famílias reduzirem o valor da prestação mensal.

O Banco de Portugal decidiu reforçar as regras aplicáveis à concessão de crédito habitação, reduzindo a taxa de esforço recomendada de 50% para 45% e ajustando os prazos máximos dos empréstimos em função da idade dos mutuários.

Segundo o supervisor, estas mudanças surgem numa altura em que o crédito concedido continua a crescer e os riscos associados ao endividamento das famílias permanecem elevados.

A combinação entre prestações mais pesadas, prazos mais longos e maior exposição às taxas de juro levou o regulador a apertar a supervisão.

Taxas mistas não eliminam risco da Euribor

Embora a maioria dos novos contratos seja celebrada com taxa mista, o Banco de Portugal lembra que a prestação fixa apenas vigora durante os primeiros anos do empréstimo.

Depois desse período, os contratos passam a estar indexados à Euribor, deixando os mutuários expostos às futuras oscilações das taxas de juro.

Na prática, a estabilidade inicial pode dar uma falsa sensação de segurança, sobretudo a quem olha apenas para a prestação dos primeiros anos.

O regulador alerta que uma subida da Euribor poderá aumentar significativamente o esforço financeiro das famílias, sobretudo num contexto de incerteza económica e geopolítica.

Mesmo pequenas variações nas taxas de referência podem traduzir-se em aumentos relevantes da prestação mensal, especialmente em contratos de montante elevado e prazo prolongado.

Spreads continuam baixos apesar das falhas detetadas

O Banco de Portugal assinala também que os spreads continuam próximos de mínimos históricos, impulsionados pela forte concorrência entre bancos.

Em março de 2026, o spread médio dos novos contratos fixou-se nos 0,75 pontos percentuais, mantendo a tendência de descida observada nos últimos anos.

Esta evolução reflete um mercado mais agressivo na captação de clientes, com maior recurso a intermediários de crédito e campanhas promocionais mais frequentes.

Apesar disso, uma auditoria do supervisor identificou insuficiências nos modelos utilizados por algumas instituições para calcular os spreads, nomeadamente na incorporação de custos, na avaliação do risco e nos mecanismos internos de controlo.

O Banco de Portugal considera que, em alguns casos, os bancos não estão a refletir de forma completa todos os custos associados à operação.

Isso pode comprometer a correta definição do preço do crédito e afetar a rendibilidade futura das instituições.

Famílias recorrem a prazos cada vez mais longos

Ao mesmo tempo, os portugueses estão a contratar crédito habitação por períodos cada vez maiores.

O prazo médio dos novos empréstimos aproxima-se dos 33 anos, refletindo a necessidade de reduzir o valor da prestação mensal perante o aumento dos preços das casas.

O montante médio financiado ronda atualmente os 196 mil euros, tornando o alongamento do prazo uma das principais formas de manter a taxa de esforço dentro dos limites exigidos pelos bancos.

Para muitas famílias, esta é a única solução para conseguir comprar casa sem ultrapassar o orçamento mensal disponível.

Este fenómeno mostra como o mercado da habitação continua pressionado pela falta de oferta e pela subida dos preços.

Os compradores acabam por recorrer a soluções financeiras mais extensas para viabilizar a aquisição.

Prestação mais baixa significa mais juros

Apesar de aliviar o orçamento mensal, um prazo mais longo implica um custo total superior ao longo da vida do empréstimo.

Quanto maior for a duração do contrato, maior será o montante pago em juros, mesmo que a prestação mensal seja mais reduzida.

O efeito imediato é positivo para a liquidez das famílias, mas o impacto acumulado pode ser significativo ao fim de várias décadas.

Para muitas famílias, esta opção representa um equilíbrio entre conseguir comprar casa hoje e suportar um custo financeiro mais elevado nas próximas décadas.

A decisão acaba por depender da capacidade de pagamento atual, da estabilidade do rendimento e da expectativa de evolução das taxas de juro.

O que devem considerar os consumidores?

As novas recomendações do Banco de Portugal procuram reduzir o risco de sobre-endividamento num mercado onde o crédito continua a crescer e a maioria dos contratos permanece dependente da evolução da Euribor.

Quem pretende contratar crédito habitação deve comparar não apenas o spread e a prestação inicial, mas também o prazo do empréstimo, a modalidade da taxa de juro e o custo total do financiamento.

Um prazo mais longo pode facilitar a aprovação do crédito e tornar a prestação mais suportável no imediato.

No entanto, traduz-se, regra geral, num valor significativamente superior pago ao banco ao longo dos anos.

Por isso, antes de avançar com a decisão, é essencial simular vários cenários e avaliar o impacto de futuras subidas das taxas de juro no orçamento familiar.