Intermediação de Crédito
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Rafaela Guerra
Escrito por Rafaela Guerra

Licenciada em Contabilidade e Administração, sou especialista em gestão financeira e marketing. Procuro ajudar os leitores a acompanhar a atualidade e a melhorar a sua literacia financeira.

Construção acelera em março enquanto BdP prepara regras mais exigentes no crédito habitação

A atividade da construção em Portugal ganhou ritmo em março, num contexto em que o mercado imobiliário continua a ajustar-se a novas exigências de financiamento.

Ao mesmo tempo, o Banco de Portugal está a preparar uma redução da taxa de esforço máxima permitida no acesso ao crédito habitação, uma alteração que poderá limitar o montante que muitas famílias conseguem pedir aos bancos.

De acordo com o Instituto Nacional de Estatística (INE), o índice de produção na construção aumentou 2,9% em termos homólogos em março, um avanço de 2,2 pontos percentuais face ao mês anterior.

Este desempenho sugere que o setor mantém uma trajetória de expansão, ainda que moderada, sustentada tanto pela construção de edifícios como pelas obras de engenharia civil.

Em paralelo, muitos agregados continuam a acompanhar o seu mapa de responsabilidades para perceber qual a margem disponível antes de avançarem para um financiamento.

Engenharia civil e salários impulsionam a atividade

A componente de construção de edifícios registou um crescimento de 1,6%, recuperando face a fevereiro. Já a engenharia civil acelerou de 2,7% para 4,9%, tornando-se o principal motor da evolução global do setor.

Por outro lado, o índice de emprego aumentou 1,7%, ligeiramente abaixo do ritmo observado no mês anterior. Em contrapartida, o índice de remunerações subiu 10,1%, refletindo uma valorização expressiva dos salários no setor.

Este movimento pode ter impacto indireto no mercado de habitação, dado que custos laborais mais elevados tendem a pressionar o preço final das novas construções. Ainda assim, o reforço da oferta é visto como um fator importante para reduzir a pressão sobre os preços das casas no médio prazo.

Banco de Portugal quer baixar a taxa de esforço máxima

Ao passo que a construção mostra sinais positivos, o Banco de Portugal prepara-se para tornar mais exigentes as regras de acesso ao crédito habitação.

Segundo informações avançadas pelo Expresso, o supervisor pretende reduzir a taxa de esforço máxima entre 5 e 10 pontos percentuais. A medida deverá ser apresentada à banca nos próximos dias e poderá entrar em vigor antes do verão.

Atualmente, a prestação total de empréstimos não deve ultrapassar 50% do rendimento líquido mensal do agregado. Se esse limite baixar para 40%, uma família com rendimento de 2.000 euros líquidos passará de uma capacidade máxima de prestação de 1.000 euros para apenas 800 euros.

Em consequência, muitos potenciais compradores poderão ver reduzido o valor do financiamento disponível, mesmo que tenham um histórico financeiro estável.

Novas regras podem excluir parte dos compradores

Dados do Banco de Portugal indicam que, em 2025, 94% dos novos créditos habitação apresentavam taxas de esforço iguais ou superiores a 50%.

Além disso, 4% situavam-se entre 50% e 60%, enquanto 2% ultrapassavam esse patamar. Isto significa que uma parte relevante dos contratos aprovados no último ano não cumpriria automaticamente um limite mais restritivo.

Para quem já suporta encargos, o impacto pode ser ainda mais significativo, uma vez que todas estas responsabilidades entram no cálculo da taxa de esforço.

Nesse sentido, consultar antecipadamente o mapa de responsabilidades continua a ser um passo essencial para avaliar a viabilidade de um novo financiamento.

Oferta aumenta, mas acesso ao crédito pode tornar-se mais difícil

O crescimento da construção é um sinal positivo para o mercado imobiliário, sobretudo numa altura em que a escassez de oferta continua a sustentar preços elevados.

Todavia, um eventual endurecimento das regras prudenciais poderá reduzir a procura, limitando o número de famílias com capacidade para comprar casa.

Por conseguinte, o mercado poderá entrar numa nova fase de ajustamento, em que o aumento gradual da oferta convive com critérios mais apertados de concessão de crédito.

Para os consumidores, isto significa que a preparação financeira será ainda mais importante. Reduzir dívidas, reorganizar encargos e melhorar o perfil de risco junto da banca poderá fazer a diferença entre obter ou não aprovação para o crédito habitação.