Em Portugal, 14,3% dos trabalhadores por conta própria encontravam-se em situação de dependência económica em 2025, segundo dados divulgados pelo Instituto Nacional de Estatística (INE). O indicador abrange profissionais independentes que concentram pelo menos 75% do seu rendimento anual numa única entidade contratante.
Este fenómeno traduz uma realidade específica do mercado laboral português, em que parte dos trabalhadores formalmente independentes mantém uma relação económica fortemente concentrada.
A dependência económica é considerada um fator de vulnerabilidade, uma vez que reduz a margem de autonomia e aumenta a exposição ao risco de perda súbita de rendimento.
Número de independentes representa 13% do emprego
De acordo com INE, o total de trabalhadores por conta própria situou-se em cerca de 703 mil pessoas, o equivalente a aproximadamente 13% do emprego total.
Este universo inclui trabalhadores independentes com e sem empregados a cargo, sendo estes últimos a maioria.
A evolução recente mostra estabilidade relativa no peso dos independentes no conjunto do mercado de trabalho, após oscilações registadas nos últimos anos.
Apesar da recuperação do emprego por conta de outrem, o trabalho independente continua a ter expressão relevante na estrutura laboral nacional.
Concentração de rendimentos marca parte dos independentes
Entre os trabalhadores por conta própria, a dependência económica incide sobretudo sobre aqueles que não têm empregados. Nestes casos, a atividade profissional tende a estar associada à prestação de serviços a uma única entidade.
A concentração de rendimentos numa só fonte pode refletir contratos de longa duração, colaboração contínua ou relações próximas de exclusividade.
Embora juridicamente enquadrados como independentes, estes profissionais apresentam um grau de exposição financeira superior, dado que a cessação da relação contratual pode comprometer a totalidade do rendimento.
Setores como atividades técnicas, serviços especializados, consultoria e áreas digitais são frequentemente apontados como contextos onde esta realidade é mais comum.
Diferenças entre homens e mulheres
Os dados revelam que a incidência da dependência económica é ligeiramente superior entre as mulheres trabalhadoras por conta própria.
Esta diferença está associada à distribuição setorial da atividade independente, com maior presença feminina em áreas onde é mais frequente a prestação de serviços a um número reduzido de entidades.
A estrutura ocupacional e os modelos de contratação em determinados setores contribuem para explicar esta maior exposição à concentração de rendimentos.
Ainda assim, a diferença entre géneros reflete uma tendência transversal no trabalho independente.
Jovens concentram maior vulnerabilidade
A análise por grupos etários mostra que os trabalhadores mais jovens apresentam uma taxa de dependência económica mais elevada.
No início da vida profissional, é mais comum que o trabalhador independente estabeleça relação com um único cliente ou entidade, antes de conseguir diversificar a carteira de rendimentos.
Entre os trabalhadores de idade mais avançada, a experiência acumulada e a rede de contactos profissionais tendem a favorecer uma maior dispersão de fontes de rendimento.
Esta diferença etária sugere que a dependência económica pode estar associada a fases iniciais do percurso profissional.
Impacto no mercado de trabalho
A presença de 14,3% de trabalhadores independentes em situação de dependência económica evidencia uma zona intermédia entre trabalho autónomo e trabalho subordinado.
Embora estes profissionais não tenham contrato de trabalho tradicional, a concentração de rendimentos aproxima a sua situação económica de uma relação de dependência.
Este fenómeno tem implicações ao nível da proteção social, da estabilidade de rendimento e da negociação contratual.
A concentração de rendimentos pode também influenciar a capacidade de planeamento financeiro e acesso a financiamento. No caso do crédito pessoal, a irregularidade ou dependência de uma única fonte de rendimento pode pesar na análise de risco feita pelas instituições financeiras.
A evolução deste indicador será determinante para avaliar a qualidade do emprego independente em Portugal e o grau de autonomia efetiva dos trabalhadores por conta própria no mercado laboral.