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Rafaela Guerra
Escrito por Rafaela Guerra

Licenciada em Contabilidade e Administração, sou especialista em gestão financeira e marketing. Procuro ajudar os leitores a acompanhar a atualidade e a melhorar a sua literacia financeira.

Famílias precisam de até 93% do salário para arrendar e mais de 100% para comprar casa em algumas cidades

O esforço financeiro exigido às famílias portuguesas para garantir habitação manteve-se em níveis muito elevados no final de 2025. A nível nacional, arrendar casa absorveu, em média, 80% do salário líquido mensal, enquanto a compra de habitação exigiu cerca de 70% do rendimento disponível.

O esforço financeiro exigido às famílias portuguesas para garantir habitação manteve-se em níveis muito elevados no final de 2025. A nível nacional, arrendar casa absorveu, em média, 80% do salário líquido mensal, enquanto a compra de habitação exigiu cerca de 70% do rendimento disponível.

Os dados resultam da comparação entre os preços médios de mercado e os rendimentos familiares estimados. A conclusão é clara: o custo da habitação continua desajustado face à capacidade financeira das famílias.

A análise por cidade revela diferenças significativas, com alguns mercados a registarem valores muito superiores à média nacional.

Funchal, Faro e Lisboa lideram no arrendamento

No arrendamento, o Funchal surge como o mercado mais pressionado do país. A renda média representa 93% do rendimento familiar, o que significa que praticamente todo o salário seria necessário para suportar o custo mensal da habitação.

Em Faro, a taxa de esforço atinge 90%, enquanto em Lisboa se fixa nos 84%, confirmando a capital como um dos mercados mais exigentes.

No Porto, o esforço necessário para arrendar casa ronda os 69%, valor que permanece muito acima do limiar considerado sustentável. Já Setúbal (67%), Ponta Delgada (58%) e Braga (57%) apresentam igualmente níveis elevados.

Estes números demonstram que a pressão no arrendamento é transversal a vários centros urbanos, não se limitando às duas maiores áreas metropolitanas.

Compra de casa ultrapassa rendimento em Lisboa

No mercado de compra, os dados revelam situações ainda mais extremas. Em Lisboa, a taxa de esforço atinge 113%, o que significa que o rendimento médio familiar não seria suficiente para cobrir a prestação estimada.

No Funchal, o indicador situa-se nos 102%, enquanto em Faro atinge 97%, aproximando-se igualmente do total do rendimento disponível.

No Porto, a compra de habitação exige cerca de 72% do salário, enquanto em Aveiro o esforço sobe para 77%. Também Ponta Delgada (65%), Braga (62%) e Viana do Castelo (60%) registam valores significativamente acima do patamar prudencial.

Em muitos destes mercados, a valorização acumulada dos imóveis nos últimos anos explica o peso crescente da prestação mensal.

Interior apresenta rácios mais equilibrados

Em contraste, algumas capitais de distrito do interior continuam a apresentar níveis de esforço mais moderados.

No arrendamento, Portalegre (34%), Guarda (34%), Castelo Branco (36%), Beja (37%) e Bragança (39%) registam valores próximos ou abaixo de um terço do rendimento familiar.

Na compra, os valores são ainda mais baixos: Guarda apresenta 18%, Portalegre 21%, Castelo Branco 22%, Beja 26% e Bragança 27%.

Nestes mercados, os preços mais reduzidos compensam salários médios também inferiores, resultando numa taxa de esforço mais sustentável.

Impacto económico e financeiro

Taxas de esforço superiores a 70%, 80% ou mesmo acima de 100% têm consequências diretas na estabilidade financeira das famílias. Quando a habitação absorve a maior parte do rendimento, diminui a margem para consumo, poupança e resposta a despesas imprevistas.

No acesso à compra, níveis tão elevados influenciam a análise de risco feita pelas instituições financeiras. Um rácio elevado entre encargos e rendimento pode limitar a aprovação de crédito à habitação ou reduzir o montante financiado.

A necessidade de entrada inicial significativa e os custos adicionais associados à aquisição agravam ainda mais o esforço exigido, sobretudo para agregados jovens ou com rendimentos intermédios.

A persistência de taxas de esforço tão elevadas evidencia um desequilíbrio estrutural entre preços e rendimentos em grande parte do território nacional.

Sem reforço significativo da oferta habitacional ou crescimento salarial consistente, o acesso à habitação continuará a representar um dos principais desafios económicos enfrentados pelas famílias portuguesas.