Portugal deverá integrar o top 3 dos países europeus onde os preços das casas mais vão subir até 2028, segundo o relatório da S&P Global sobre os “Mercados Imobiliários Europeus”. As estimativas apontam para uma valorização sustentada, refletindo desequilíbrios estruturais que continuam a marcar o acesso à habitação no país.
Apesar de alguns sinais de estabilização no curto prazo, a trajetória de médio prazo mantém-se ascendente. A combinação entre procura elevada, oferta limitada e dificuldades no acesso à habitação sustenta a previsão de subidas continuadas nos próximos anos, num cenário que continua a preocupar famílias e decisores políticos.
A valorização esperada surge depois de vários anos de crescimento acentuado dos preços, que afastaram uma parte significativa da população do acesso à compra de casa, sobretudo nos grandes centros urbanos.
Procura elevada continua a pressionar o mercado
Um dos principais fatores que explica esta projeção é a manutenção de uma procura elevada, sobretudo nas áreas metropolitanas de Lisboa e do Porto e em zonas com forte dinamismo económico e turístico.
O crescimento populacional, a imigração e a concentração de emprego em determinados territórios continuam a alimentar a necessidade de habitação.
Mesmo num contexto de crescimento económico moderado, a habitação mantém-se como um ativo valorizado, tanto para residência própria como para investimento. Esta procura persistente contribui para a pressão sobre os preços, sobretudo em mercados onde a oferta reage lentamente.
Além disso, o imobiliário continua a ser visto como uma forma de proteção do capital, o que reforça o interesse de investidores nacionais e estrangeiros.
Oferta insuficiente mantém desequilíbrio estrutural
Do lado da oferta, os constrangimentos continuam a ser um dos principais problemas do mercado português. A escassez de nova construção, os atrasos nos processos de licenciamento e os custos elevados de construção limitam a capacidade de resposta à procura existente.
Em Portugal, a produção de habitação nova tem ficado aquém das necessidades, sobretudo nos segmentos de preços mais acessíveis. Este défice estrutural contribui para que qualquer aumento da procura tenha um impacto direto nos preços.
Sem um reforço consistente da oferta, sobretudo nas zonas mais pressionadas, o mercado tende a ajustar-se quase exclusivamente através da valorização dos imóveis.
Portugal destaca-se no contexto europeu
No conjunto dos países europeus analisados, Portugal surge entre os mercados com maior potencial de crescimento dos preços da habitação até 2028. Esta projeção contrasta com outras economias onde se espera uma evolução mais moderada ou mesmo períodos de estagnação.
A atratividade do país para investidores estrangeiros, a estabilidade política e a procura interna resiliente reforçam esta posição. Ao mesmo tempo, a dimensão reduzida do mercado e a concentração da procura em áreas específicas amplificam os efeitos da escassez de oferta.
Este enquadramento coloca Portugal entre os mercados imobiliários mais pressionados da Europa no médio prazo.
Crédito à habitação e o acesso à compra
A projeção de subida dos preços até 2028 ocorre num contexto em que o mercado da compra de casa se tornou progressivamente mais seletivo.
O acesso ao financiamento, como o crédito habitação, depende cada vez mais da capacidade de cumprir critérios bancários rigorosos, desde o nível de rendimentos à estabilidade profissional e histórico de crédito.
Este filtro reduz o número de compradores efetivos, mas não elimina a pressão sobre os preços. Em mercados onde a oferta é escassa, basta uma base limitada de procura com maior capacidade financeira para sustentar a valorização dos imóveis, sobretudo nas zonas urbanas mais procuradas.
Além disso, a necessidade de capital próprio mais elevado para avançar com a compra exclui uma parte significativa da população, em especial jovens e agregados em início de carreira. Ainda assim, esta exclusão não se traduz automaticamente numa correção dos preços, uma vez que a oferta disponível continua insuficiente face à procura qualificada.
Impacto prolonga-se no arrendamento e nas famílias
A subida esperada dos preços da habitação tem reflexos diretos no mercado de arrendamento. Com a compra de casa mais difícil, a procura por arrendamento tende a manter-se elevada, prolongando a pressão sobre as rendas.
Para as famílias, sobretudo jovens e agregados de rendimentos médios, o cenário até 2028 reforça as dificuldades de acesso à habitação. Sem um aumento significativo da oferta e políticas estruturais eficazes, o mercado deverá continuar a ajustar-se sobretudo através dos preços.
As projeções reforçam, assim, a necessidade de medidas de longo prazo que promovam maior acessibilidade à habitação, evitando que a valorização do mercado continue a agravar as desigualdades no acesso a casa própria.