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Inês Pereira
Escrito por Inês Pereira

Licenciada em Jornalismo e com experiência em temas sobre finanças pessoais. Sou a porta voz do Portal do Crédito e utilizo a minha experiência nesta área para ajudar esclarecer as dúvidas dos leitores no que ao crédito diz respeito.

Não Pagar Cartão de Crédito: Consequências e Como Reagir

saber consequências de não pagar cartão de crédito

Não pagar o cartão de crédito tem consequências que evoluem por fases — começam num atraso simples com juros de mora e podem escalar até à penhora de bens. A boa notícia é que, em Portugal, o consumidor tem direitos legais específicos nesta situação, nomeadamente o PARI e o PERSI, mecanismos obrigatórios criados para tentar evitar a execução judicial.

Neste guia explicamos o que acontece em cada fase, quais os direitos que tem, como acionar PARI/PERSI, e que alternativas existem antes de chegar a uma situação de incumprimento grave.

O incumprimento de cartão de crédito não tem uma única consequência — tem várias, que se acumulam à medida que o tempo passa sem pagamento.

Primeiro atraso (até 30 dias)

Logo no primeiro dia de atraso começam a correr juros de mora sobre o valor em dívida. A taxa de mora é tipicamente a taxa nominal do cartão acrescida de 3 pontos percentuais, com limite definido pelo Banco de Portugal. O banco envia uma comunicação a alertar para o incumprimento e, em paralelo, pode adicionar comissões por atraso.

30 a 60 dias (PARI obrigatório)

Quando há sinais de risco de incumprimento, o banco é obrigado por lei a ativar o PARI — Plano de Acção para o Risco de Incumprimento. O objetivo é antecipar a solução: o banco contacta o cliente, analisa a sua situação financeira e propõe alterações ao crédito (alargamento do prazo, redução temporária da prestação, carência). Estar atento aos contactos do banco neste período pode evitar o agravamento posterior.

60 a 90 dias (incumprimento formal)

Após 30 dias de atraso, o banco está obrigado a comunicar o incumprimento à Central de Responsabilidades de Crédito (CRC) do Banco de Portugal. Esta comunicação fica visível no mapa de responsabilidades de qualquer instituição que consulte o histórico de crédito do titular — afeta diretamente a capacidade de obter novos créditos.

A partir de 90 dias (PERSI obrigatório)

O PERSI — Procedimento Extrajudicial de Regularização de Situações de Incumprimento é o mecanismo legal mais importante para quem entra em incumprimento. É obrigatório para o banco e protege o consumidor: durante o PERSI, o banco não pode cobrar comissões adicionais, ceder o crédito a terceiros, nem avançar para execução judicial. Tem direito a propor um plano de renegociação. Detalhamos PARI e PERSI na próxima secção.

Após PERSI sem acordo

Se o PERSI termina sem acordo, o banco pode avançar para execução judicial. As consequências possíveis incluem:

  • Inclusão na lista negra do Banco de Portugal (registo de incumprimentos), o que impede obter crédito durante anos
  • Penhora de salário dentro dos limites legais (a parte impenhorável do salário mínimo nacional fica protegida)
  • Penhora de contas bancárias e outros bens móveis
  • Cedência do crédito a uma empresa de recuperação especializada
  • Custos judiciais acrescidos à dívida original (taxa de justiça, honorários, juros de mora acumulados)

O Decreto-Lei n.º 227/2012 criou dois mecanismos obrigatórios para proteção do consumidor em situação de incumprimento de crédito: o PARI e o PERSI. Aplicam-se a qualquer crédito ao consumo, incluindo cartões de crédito.

PARI — Plano de Ação para o Risco de Incumprimento

É preventivo. Aplica-se quando há indícios de risco mas ainda não houve incumprimento efetivo. O banco é obrigado a contactar o cliente assim que detete o risco, analisar a situação e propor alterações ao contrato que evitem o incumprimento.

Não tem de esperar pelo banco — também pode tomar a iniciativa: se prevê dificuldades nos próximos meses, comunique ao banco e peça a aplicação do PARI. É melhor agir antes do que reagir depois.

PERSI — Procedimento Extrajudicial de Regularização

Aplica-se quando já há incumprimento. O banco é obrigado a iniciar o PERSI no prazo de 15 dias após o atraso superior a 30 dias e tem de o concluir em até 90 dias (renováveis por mais 30). Durante o PERSI:

  • O banco não pode cobrar comissões adicionais nem agravar a taxa
  • O banco não pode ceder o crédito a terceiros
  • O banco não pode avançar para execução judicial
  • Tem direito a propor um plano de regularização (alargamento de prazo, redução de prestação, consolidação com outros créditos, redução parcial da dívida em situações limite)

O PERSI termina por acordo (com plano de regularização) ou sem acordo (banco fica livre para avançar com a ação judicial). Pode também ser extinto por decisão do consumidor ou por incumprimento das obrigações de cooperação.

Para mais detalhes sobre direitos do consumidor em incumprimento, consulte o Portal do Cliente Bancário do Banco de Portugal.

Se está com dívida acumulada no cartão de crédito, há caminhos que podem ajudar antes do incumprimento formal:

  • Renegociação direta com o banco: peça reunião e proponha alargamento de prazo, redução de plafond ou plano de pagamento. É do interesse do banco evitar o incumprimento
  • Crédito consolidado: junta a dívida do cartão (com taxa elevada, frequentemente acima de 18%) num crédito pessoal com taxa mais baixa e prestação mensal fixa
  • Crédito pessoal para amortizar o cartão: solução semelhante ao consolidado quando a dívida é apenas do cartão. Pode comparar opções no nosso guia de crédito pessoal
  • Apoio especializado: a DECO oferece aconselhamento financeiro gratuito e há gabinetes públicos de apoio sobreendividado (ver mais alternativas)
  • Não pagar um cartão com outro: usar o plafond de um cartão para pagar a fatura de outro só transfere e amplifica o problema
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  • Use apenas quando necessário: o cartão de crédito é o produto bancário com taxa mais alta. Evite usá-lo para despesas correntes que pode pagar à vista
  • Pague 100% do extracto, não o mínimo: o pagamento mínimo cobre praticamente só os juros e mantém a dívida indefinidamente
  • Peça apenas o plafond necessário: um plafond alto cria a ilusão de poder de compra que pode comprometer o orçamento
  • Defina limites de gastos mensais independentes do plafond contratual
  • Tenha um fundo de emergência separado para imprevistos — evita usar o cartão como almofada

Não pagar o cartão de crédito tem consequências sérias, mas em Portugal existem mecanismos legais — PARI e PERSI — que protegem o consumidor e dão tempo para encontrar uma solução. A regra de ouro: agir cedo. Contactar o banco antes do incumprimento formal, recorrer a aconselhamento financeiro e considerar a consolidação são caminhos que evitam a inclusão na lista negra do Banco de Portugal e a execução judicial.

Para alternativas concretas, veja o nosso guia de crédito consolidado ou compare opções no guia de crédito pessoal.