O agravamento do conflito no Irão, reacendido no final de fevereiro, está a aumentar a incerteza global e a colocar os mercados sob forte pressão.
O impacto mais imediato já é visível na energia, mas especialistas admitem que, caso a guerra se prolongue, poderá desencadear um efeito em cadeia com consequências na inflação, nos juros e no mercado da habitação em Portugal.
A duração do conflito será determinante. Um cenário curto poderá limitar os impactos ao setor energético, mas uma escalada prolongada tende a afetar vários setores da economia, incluindo construção e imobiliário.
Energia dispara com bloqueio de rota estratégica
Os primeiros efeitos do conflito fizeram-se sentir nos preços do petróleo e do gás. O barril de Brent, referência para a Europa, subiu mais de 38%, ultrapassando os 100 dólares pela primeira vez desde 2022. Já o gás natural europeu registou uma valorização superior a 60%.
Este aumento está ligado à instabilidade no Estreito de Ormuz, uma das principais rotas energéticas globais, por onde passa cerca de 20% do fornecimento mundial de petróleo e gás. A interrupção ou limitação desta via tem impacto direto nos mercados internacionais.
Em resposta à subida dos preços, a Agência Internacional de Energia avançou com a libertação de 400 milhões de barris de reservas estratégicas, a maior operação do género até à data. Ainda assim, a Comissão Europeia reconheceu que a União Europeia enfrenta uma verdadeira “crise de preços” na energia.
Em Portugal, o Governo decidiu reduzir o ISP sobre combustíveis para mitigar o impacto imediato. Bruxelas admite também medidas adicionais, como tetos ao preço do gás ou redução de taxas na fatura energética, caso a pressão se mantenha.
Efeito em cadeia pode atingir consumo e alimentos
O aumento dos preços da energia tende a propagar-se rapidamente a outros setores da economia. Transportes, logística e turismo são dos primeiros a sentir o impacto, mas os efeitos não ficam por aí.
Com o aumento dos custos de distribuição e produção, produtos essenciais como os alimentos poderão sofrer aumentos nos próximos meses. Associações de defesa do consumidor já alertam para este risco, num contexto de pressão adicional sobre o custo de vida.
Além disso, cadeias industriais e agrícolas dependentes de energia poderão enfrentar margens mais reduzidas ou ser obrigadas a repercutir custos nos preços finais.
Construção pode enfrentar nova subida de custos
Um dos setores mais expostos ao aumento da energia é o da construção. Materiais como cimento, aço, alumínio, vidro e cerâmica dependem fortemente de processos produtivos intensivos em energia.
Numa fase inicial, o impacto poderá surgir sobretudo nos custos de transporte. Contudo, se a subida dos preços energéticos persistir, os custos de produção tornam-se o principal fator de pressão.
Especialistas admitem que este cenário pode replicar o que aconteceu entre 2022 e 2023, quando a inflação energética levou a aumentos significativos nos custos de construção. Em muitos casos, esses aumentos tornaram-se estruturais e não foram revertidos.
Ainda que alguns analistas considerem que os preços dos materiais poderão corrigir após o fim da crise, há consenso de que os custos da mão de obra tendem a manter uma trajetória de subida, impulsionados pela inflação.
Pressão sobre preços das casas e novos projetos
O impacto no mercado imobiliário poderá surgir por duas vias principais: aumento dos custos de construção e abrandamento de novos projetos.
Se os custos dos materiais e da energia continuarem a subir, é expectável que os promotores imobiliários ajustem os preços de venda das habitações. Ao mesmo tempo, a incerteza pode levar ao adiamento ou cancelamento de novos empreendimentos.
Num país onde a oferta já é limitada, qualquer travão no ritmo de construção tende a prolongar a pressão sobre os preços das casas.
Ainda assim, especialistas sublinham que o impacto não será imediato nem uniforme. A escassez de oferta poderá manter os preços relativamente resilientes, mas com menor dinâmica de mercado e prazos de venda mais longos.
Inflação pode obrigar BCE a agir
A subida dos preços da energia aumenta o risco de uma nova pressão inflacionista na zona euro. Caso a inflação ultrapasse de forma consistente a meta de 2%, o Banco Central Europeu poderá ser forçado a reagir.
Para já, o cenário mais provável apontado por analistas é o de juros elevados durante mais tempo, em vez de um novo ciclo agressivo de subidas. Ainda assim, tudo dependerá da evolução do conflito e do impacto nos preços energéticos.
A experiência recente mostra que choques energéticos podem ter efeitos prolongados. Em 2022, o BCE iniciou a subida dos juros apenas meses após o início da guerra na Ucrânia, numa resposta considerada tardia.
Euribor já reflete expectativas de subida
Mesmo sem decisões concretas do BCE, os mercados financeiros já começaram a antecipar possíveis mudanças na política monetária.
As taxas swap e a Euribor registaram subidas recentes, refletindo expectativas de inflação mais elevada e maior incerteza. Esta evolução tem impacto direto no crédito habitação, sobretudo em países como Portugal, onde predominam contratos com taxa variável.
As prestações da casa poderão aumentar nas próximas revisões, especialmente nos contratos indexados à Euribor a 6 e 12 meses. Além disso, novos contratos poderão ser celebrados com condições menos favoráveis.
Num contexto de volatilidade, cresce também o interesse por soluções com maior previsibilidade, como crédito habitação com taxa fixa ou mista, embora estas impliquem, regra geral, um custo inicial mais elevado.
A evolução futura dependerá sobretudo da duração do conflito no Médio Oriente. Se a situação estabilizar rapidamente, os mercados poderão corrigir e aliviar a pressão. Caso contrário, o impacto poderá estender-se à economia real, ao financiamento das famílias e ao mercado imobiliário.