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Rafaela Guerra
Escrito por Rafaela Guerra

Licenciada em Contabilidade e Administração, sou especialista em gestão financeira e marketing. Procuro ajudar os leitores a acompanhar a atualidade e a melhorar a sua literacia financeira.

Comprar casa em Portugal exige esforço superior a 40% do rendimento mediano

Comprar casa em Portugal tornou-se significativamente mais difícil nos últimos anos, com o esforço financeiro a ultrapassar níveis considerados sustentáveis.

Os dados mais recentes, divulgados pelo Banco de Portugal, mostram que a aquisição de habitação exige mais de 40% do rendimento mediano das famílias. Reflete um agravamento claro no acesso ao mercado.

Este aumento resulta da combinação entre a subida dos preços das casas, o crescimento das rendas e o impacto das condições de financiamento. A evolução tem sido particularmente acentuada desde 2019, com um agravamento generalizado em todo o território.

Número de municípios acima dos 40% disparou

A deterioração da acessibilidade à habitação é evidente na evolução dos últimos anos. Em 2019, apenas nove municípios apresentavam uma taxa de esforço superior a 40%, mas esse número subiu para 104 municípios em 2023, num total de 294 analisados.

O aumento mostra que o problema deixou de estar concentrado em algumas zonas e passou a afetar uma parte significativa do país. Ainda assim, o impacto é mais evidente no litoral, onde a procura é mais elevada e a oferta mais limitada.

Lisboa e Porto destacam-se como os casos mais críticos, concentrando os níveis mais elevados de esforço exigido às famílias.

Lisboa e Porto com níveis críticos de esforço

Nas duas principais cidades do país, os valores atingem níveis particularmente elevados. Em Lisboa, a prestação necessária para comprar uma casa de dimensão média passou de 907 euros em 2019 para 1.811 euros em 2023, o que corresponde a uma taxa de esforço de 102% para uma família com rendimento mediano.

No Porto, a evolução foi semelhante, com os encargos a subirem de 550 euros para 1.339 euros, representando cerca de 84% do rendimento mediano.

Estes valores indicam que, na prática, apenas famílias com rendimentos mais elevados conseguem aceder ao mercado nestas cidades. Segundo o estudo, apenas agregados nos percentis 80 e 90 de rendimento conseguem comprar uma casa mediana a preços médios.

Algarve e litoral agravam desigualdades

A dificuldade de acesso não se limita às grandes cidades. Em alguns municípios do Algarve, a compra de habitação torna-se praticamente inacessível para a maioria da população.

Nestes casos, o acesso está muitas vezes limitado a famílias com maior capacidade financeira, poupança acumulada ou rendimentos mais elevados, incluindo residentes no estrangeiro.

Em 2023, apenas 30% das famílias conseguiam suportar encargos com um peso superior a 40% do rendimento.

Esta realidade reforça as desigualdades regionais, com o litoral a apresentar maiores dificuldades devido à pressão da procura e à escassez de oferta habitacional.

Arrendamento também mais pressionado

O aumento das dificuldades não se verifica apenas na compra de casa. No arrendamento, o cenário também se agravou de forma significativa.

O rácio entre a renda de uma casa mediana e o rendimento mediano das famílias subiu de 36% em 2019 para 47% no início de 2025, refletindo o aumento dos preços.

Entre 2019 e 2023, a renda mensal mediana passou de 1.001 euros para 1.274 euros, representando um peso de cerca de 72% do rendimento mediano. No Porto, esse valor situa-se nos 66%, ainda assim bastante elevado.

Este aumento está associado à escassez de oferta face à procura crescente, sobretudo nas zonas mais urbanas e no litoral.

Preços da habitação continuam a subir

A evolução dos preços é outro fator central neste cenário. O índice de preços da habitação aumentou cerca de 140% entre 2016 e 2025, evidenciando uma valorização muito significativa do mercado.

No mesmo período, entre o primeiro trimestre de 2019 e o primeiro trimestre de 2025, a renda mediana por metro quadrado subiu cerca de 65%, reforçando a pressão sobre as famílias.

Este desfasamento entre preços e rendimentos contribui para o aumento da dificuldade no acesso à habitação, tanto na compra como no arrendamento.

Condições de financiamento exigem maior atenção

Perante este contexto, o acesso à habitação através de financiamento tornou-se mais exigente. O estudo indica que os créditos mais recentes estão cada vez mais concentrados em famílias com rendimentos mais elevados.

Além disso, fatores como o prazo de reembolso, o perfil de risco e o histórico financeiro, refletido no credit score, influenciam diretamente as condições de acesso.

Em alguns casos, estratégias como a amortização antecipada podem ajudar a reduzir o impacto dos encargos ao longo do tempo, embora devam ser avaliadas com cuidado.

Os dados confirmam um agravamento generalizado no acesso à habitação em Portugal, com uma taxa de esforço superior a 40% e forte pressão nos principais centros urbanos, reforçando a necessidade de planeamento financeiro rigoroso e maior equilíbrio entre oferta e procura no mercado.