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Rafaela Guerra
Escrito por Rafaela Guerra

Licenciada em Contabilidade e Administração, sou especialista em gestão financeira e marketing. Procuro ajudar os leitores a acompanhar a atualidade e a melhorar a sua literacia financeira.

Cabaz alimentar atinge máximo histórico e taxa de poupança das famílias recua em 2025

O custo do cabaz alimentar em Portugal voltou a atingir um máximo histórico, enquanto a taxa de poupança das famílias registou uma ligeira descida no final de 2025. Estes dois indicadores refletem uma pressão crescente sobre o orçamento dos agregados, num contexto em que os preços dos bens essenciais continuam elevados.

A conjugação entre despesas correntes mais altas e menor capacidade de poupança está a reduzir a margem financeira das famílias, tornando mais difícil equilibrar o orçamento mensal e acomodar encargos fixos.

Cabaz alimentar atinge novo máximo histórico

O cabaz alimentar monitorizado pela DECO PROteste custa atualmente 254,40 euros, mais 0,08 euros do que na semana anterior. Este valor representa o nível mais alto desde o início da análise, em janeiro de 2022, confirmando a tendência de subida dos preços dos alimentos.

Desde o início de 2025, comprar este conjunto de produtos tornou-se mais caro. Os consumidores pagam agora mais 12,57 euros, o equivalente a um aumento de 5,2%.

A comparação com períodos anteriores evidencia ainda mais esta evolução. Há um ano, o mesmo cabaz custava menos 17,46 euros (menos 7,37%), enquanto no início de 2022 era possível poupar 66,70 euros, o que corresponde a uma diferença de 35,53%.

Subidas concentram-se em produtos essenciais

Entre 18 e 25 de março, vários produtos registaram aumentos significativos. A curgete subiu 17% para 2,75 euros, o tomate chucha aumentou 15% para 2,60 euros e a cebola valorizou 10% para 1,42 euros.

Numa perspetiva anual, os aumentos são ainda mais expressivos. Produtos como a couve-coração subiram 53% (1,87 euros), o café torrado moído aumentou 39% (5,15 euros) e o robalo também valorizou 39%, atingindo 9,81 euros por quilo.

Desde 2022, os aumentos acumulados são ainda mais significativos. A carne de novilho para cozer subiu 122% para 12,89 euros/kg, a couve-coração aumentou 88% e os ovos registaram uma subida de 84%, para 2,10 euros.

Cabaz inclui 63 produtos essenciais

O cabaz analisado inclui 63 produtos alimentares, abrangendo categorias como carne, peixe, congelados, frutas, legumes, laticínios e mercearia.

Entre os produtos considerados estão bens essenciais como frango, pescada, arroz, leite, fruta e legumes, permitindo avaliar o impacto real da inflação alimentar no dia a dia das famílias.

A subida generalizada dos preços demonstra que a pressão não se limita a produtos específicos, mas afeta de forma transversal o consumo alimentar.

Taxa de poupança recua para 12,1% no final de 2025

A taxa de poupança das famílias fixou-se em 12,1% do rendimento disponível no final de 2025, registando uma ligeira descida de 0,1 pontos percentuais face ao trimestre anterior.

Segundo os dados, o Rendimento Disponível Bruto aumentou 1,3%, impulsionado pelo crescimento das remunerações (1,7%) e do Valor Acrescentado Bruto (1,3%). No entanto, este aumento foi insuficiente para compensar o crescimento da despesa.

A despesa de consumo final subiu 1,4%, acelerando face ao trimestre anterior, o que levou a uma redução da capacidade de poupança. Ou seja, apesar de as famílias estarem a ganhar mais, estão também a gastar mais, o que limita a acumulação de poupança.

Menor capacidade de financiamento das famílias

A capacidade de financiamento das famílias também registou uma ligeira redução, fixando-se em 3,9% do PIB, menos 0,1 pontos percentuais face ao trimestre anterior e menos 0,8 pontos percentuais em termos homólogos.

Este resultado está associado ao aumento de 4% da Formação Bruta de Capital Fixo, sobretudo ligado ao investimento em habitação. Este crescimento acabou por absorver parte da poupança gerada.

Na prática, uma maior fatia dos recursos das famílias está a ser canalizada para consumo e investimento, reduzindo a margem disponível para poupança líquida.

Pressão sobre orçamento leva a maior recurso a crédito

A combinação entre o aumento do custo do cabaz alimentar e a redução da poupança está a intensificar a pressão sobre o orçamento das famílias. Com menor margem financeira, muitos agregados recorrem a soluções de financiamento para fazer face a despesas correntes.

Neste contexto, o recurso a crédito pessoal e a utilização de cartões de crédito tende a aumentar, sobretudo para acomodar despesas imprevistas ou colmatar quebras de rendimento disponível.

Este tipo de soluções, embora úteis no curto prazo, implica encargos adicionais e pode agravar o equilíbrio financeiro se não for devidamente gerido. Por isso, torna-se essencial acompanhar o montante em dívida e garantir que os compromissos assumidos são compatíveis com a capacidade financeira.

Os dados apontam para um cenário exigente: o aumento dos custos essenciais e a redução da poupança estão a limitar a capacidade financeira das famílias, reforçando a necessidade de uma gestão mais rigorosa num contexto económico ainda desafiante.