A Comissão Europeia reconheceu que Portugal está entre os Estados-membros mais afetados pela crise da habitação na União Europeia. A admissão foi feita por Bruxelas no âmbito da análise aos desafios estruturais que vários países enfrentam no acesso a casas a preços comportáveis.
Segundo a Comissão, o problema da habitação é transversal à União Europeia, mas assume maior gravidade em países onde a subida dos preços das casas e das rendas foi mais rápida do que a evolução dos rendimentos das famílias, como é o caso português.
Preços elevados e rendas pressionam o acesso à habitação
Portugal destaca se pelo forte aumento do custo da habitação nos últimos anos, tanto no mercado de compra como no arrendamento. A escassez de oferta, sobretudo nos grandes centros urbanos, tem contribuído para a valorização acelerada dos imóveis.
Este contexto dificulta o acesso à habitação por parte de jovens, famílias de rendimentos médios e trabalhadores deslocados, levando muitos agregados a adiar decisões de compra ou a permanecer no mercado de arrendamento por mais tempo.
Bruxelas prepara resposta europeia à crise
Perante este cenário, a Comissão Europeia está a desenvolver um plano europeu para a habitação acessível. O objetivo passa por reforçar a construção de casas, acelerar processos de licenciamento e promover a reabilitação de edifícios devolutos.
Bruxelas admite rever regras de auxílios estatais para permitir maior apoio público a projetos de habitação e facilitar o recurso a fundos europeus, incluindo instrumentos financeiros destinados a estimular o investimento no setor.
Pressão desigual entre Estados membros
Embora a crise afete vários países, a Comissão sublinha que o impacto não é homogéneo. Estados membros do sul da Europa, como Portugal, Espanha e Grécia, registam uma combinação de preços elevados, procura crescente e oferta limitada.
Este desequilíbrio tem sido agravado por fatores como o turismo, a atração de investimento estrangeiro e alterações demográficas, elementos que pressionam ainda mais os mercados locais de habitação.
Efeitos sociais e económicos do problema habitacional
A dificuldade de acesso à habitação tem consequências que vão além do mercado imobiliário. Bruxelas alerta para impactos na mobilidade laboral, na coesão social e na capacidade de as famílias gerirem o seu orçamento mensal.
Em vários países, os custos com a casa representam uma fatia crescente do rendimento disponível, reduzindo margem para poupança, consumo e investimento noutras áreas essenciais.
Ligação ao crédito habitação e ao financiamento das famílias
O contexto de preços elevados da habitação tem impacto direto no recurso ao crédito habitação em Portugal. Com valores mais altos dos imóveis, os montantes financiados aumentam e exigem maior esforço financeiro por parte das famílias.
Este cenário pode levar a critérios mais exigentes na concessão de crédito, ao aumento da taxa de esforço e, em alguns casos, ao recurso complementar ao crédito pessoal para suportar despesas associadas à compra ou adaptação da casa.
Um desafio estrutural para os próximos anos
O reconhecimento por parte de Bruxelas coloca a crise da habitação no centro da agenda europeia e nacional. A eficácia das medidas que vierem a ser adotadas será determinante para aliviar a pressão sobre os preços e melhorar o acesso à habitação.
Para Portugal, o desafio passa por conjugar políticas públicas, investimento e condições de financiamento que permitam responder a um problema estrutural com impacto económico e social crescente.