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Spread: o que é, que fatores o influenciam e cuidados a ter

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Spread. É o Fórmula 1 que os bancos mais utilizam para atrair clientes ao campeonato dos empréstimos para compra de habitação. Mas o (mais) barato pode sair-lhe caro. Saiba como evitar curvas perigosas, antes de decidir.


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Os avisos da entidade supervisora bancária são cíclicos e costumam compor muitas manchetes nos jornais. E sem grandes variações: “Banco de Portugal alerta que guerra de spreads aumenta risco de crédito malparado no futuro”.

Ainda que inglesa, esta palavra-chave é das mais conhecidas e pronunciadas pelos portugueses. Mas no “economês” das instituições bancárias – o tal sítio onde se cruza a estabilidade financeira macroeconómica de um país com o microcosmo do bolso de cada um de nós -, a distância entre o OK e o KO pode ser perigosamente curta. Sobretudo quando a busca é orientada pelo melhor spread, sem olhar a mais nada.

É que, como iremos ver detalhadamente, nem sempre o spread mais baixo é aquele que lhe convém e/ou significa um empréstimo mais barato.

Como não há pior sensação do que aquela de “espalharmo-nos ao comprido” por preguiça informativa e excesso de idílio publicitário, urge sempre começar pela base e saber exatamente o que é o spread, quais os cuidados a ter e o que influencia o seu valor, entre outras noções essenciais.

O que é o spread?

O spread é uma taxa de juro que é aplicada pelas entidades credoras nos contratos de créditos. Encare o spread como a margem de lucro que estas entidades vão ter quando efetuam um empréstimo.

Apesar de não ser do conhecimento geral, para emprestarem dinheiro, as entidades credoras recorrem a financiamento de terceiros. Através de contas poupanças dos clientes, fazendo empréstimos a outros bancos e investidores, entre outras formas.

No fim, é comum o cliente de um crédito receber dinheiro que foi emprestado à entidade credora. Ou seja, muitas financeiras emprestam dinheiro que lhes foi emprestado.

Todo este sistema tem um risco, por isso, quando efetuamos um crédito, as taxas de juro que pagamos incluem as taxas que a entidade credora está a pagar a terceiros mais a sua margem de lucro – o denominado o spread.

Representando numa fórmula a taxa de juro que pagamos num crédito, obtemos o seguinte:

Taxa de Juro = Custo do Dinheiro + Spread

Spread: uma equação cheia de variáveis

Ora bem, spread é parte da taxa de juro que é somada ao indexante, de que é exemplo o Euribor (European Interbank Offered Rate) – a taxa de referência do mercado monetário interbancário e que é comummente usada nos contratos de crédito habitação em Portugal. O Euribor traduz a cotação média de um conjunto de bancos europeus.

O spread reflete, por isso, a margem de lucro que, em cada contrato, cada entidade bancária determina livremente para si.

São, porém, vários os fatores que entram na equação. Daí que o montante de spread dependa:

1. Da finalidade do crédito (pessoal, para compra de habitação, etc.);

2. Do perfil do cliente com a instituição (isto é, rendimentos, vínculo laboral, histórico comercial no banco, taxa de esforço, entre outros fatores);

3. Da capacidade negocial do cliente;

4. Do risco da operação (que o banco procura limitar para si próprio ao mínimo) e o retorno que a entidade credora pensa conseguir com ela, os quais, por sua vez, influenciam a taxa de juro a suportar pelo cliente;

5. Da relação entre o valor do empréstimo e o do imóvel (ou seja, a garantia que assegura à instituição bancária de que não ficará a perder em caso de incumprimento do consumidor);

6. Do custo de financiamento.

Mas não só, porque a estratégia comercial da entidade bancária costuma entrar também nesta equação. E, quando o faz, o spread vê-se normalmente reduzido caso o potencial cliente adquira outros produtos financeiros, associados ao crédito em negociação. É o chamado cross-selling (vendas cruzadas).

Em resumo, a taxa de juro que um cliente paga num crédito depende do risco associado ao seu perfil. As entidades credoras procuram minimizar o seu risco e caso identifiquem um cliente com elevado potencial de incumprimento vão cobrar taxas de juro superiores.

No entanto, se uma entidade credora praticar taxas de juro demasiado elevadas irá perder clientes de crédito para outros bancos.

E é por isso que lemos, vemos e ouvimos falar (nas notícias) em “guerras de spreads”, alturas em que as instituições de crédito, para incrementar uma maior competitividade no mercado e atrair clientes, tornam os critérios de concessão dos empréstimos mais “elásticos”, digamos assim.

Principalmente nos contratos de crédito habitação, é possível negociar com o banco o spread praticado. Se tiver condições sólidas, negoceie com os bancos, pois muitas vezes têm margem de manobra para descer esta taxa de juro.

Como não derrapar nas curvas e contracurvas do crédito

É nesta fase que, enquanto consumidores, se deve acender por cima das nossas cabeças – com particular pertinência – aquela luzinha amarela intermitente que significa “cautela”.

Isto porque, se não existir um cuidado redobrado, aquilo que é aparentemente barato, e de ocasião, pode sair caro num ápice, para uma quase infinidade de anos!

Para não derrapar nas curvas e contracurvas das simulações bancárias, e da negociação para obter o crédito que almeja, é importante seguir à risca alguns checkpoints de segurança.

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Seja como for, o ponto de partida para o périplo a fazer deve ser sempre o mesmo: comparar sempre simulações de crédito com mesmo valor de financiamento, prazo de pagamento e taxa de juro indexante (Euribor, normalmente).

Vai decerto encontrar spreads muito diferentes. E os seus olhos vão poisar no mais barato. Pois bem, é nessa altura em que deverá esquecer momentanea e paradoxalmente o spread.

Em sua vez, na Ficha de Informação Normalizada Europeia (FINE) facultada por cada um dos bancos, atente antes na frase que transporta a informação sobre a Taxa Anual Efetiva Global (TAEG).

TAEG: a lupa do empréstimo mais compensador

A TAEG (que substituiu a Taxa Anual Efetiva Revista, a partir de 2018) é o índice de referência para comparar produtos financeiros, a unidade de medida que, com maior alcance, melhor se aproxima do real preço de um empréstimo.

Assim sendo, a TAEG mais baixa que encontrar aponta-lhe o caminho do empréstimo que mais o compensará, enquanto cliente.

Porquê? Porque, ao medir anualmente o preço do crédito, em percentagem do montante emprestado, a Taxa Anual Efetiva Global inclui:

  • os juros;
  • as comissões bancárias;
  • os impostos;
  • outros encargos relacionados ao contrato de crédito, inclusive as despesas processuais;
  • os seguros necessários à obtenção do empréstimo;
  • as despesas associadas à manutenção da conta (se obrigatória), que sirva para registar as operações de liquidação das prestações e usufruto do crédito, bem como os custos relativos à utilização do respetivo meio de pagamento;
  • os emolumentos relativos ao registo da hipoteca;
  • a remuneração do intermediário do empréstimo, caso seja liquidada pelo cliente.

A propósito, conheça a diferença entre TAEG e TAN e como analisar cada uma.

Quando um spread alto significa poupança

Dito – e feito – isto, não se admire, portanto, se se encontrar na iminência de estar a optar até pelo financiamento com o spread mais alto de todos! Não se assuste – pode acontecer, e é mais frequente do que pensa.

Mas se procura o empréstimo mais barato, o que interessa é mesmo a TAEG de valor inferior.

Aliás, não faltam casos de pessoas que, ao fazer as contas até ao final do contrato de financiamento em perspetiva, e ao seguir a fórmula atrás mencionada, conseguiram poupar quase uma dezena de milhar de euros – precisamente porque seguiram a trajetória da TAEG mais baixa e não o do spread mais em conta (daqueles que têm atrás de si a subscrição de alguns produtos associados, que, ao fim e ao cabo, até podem por encarecer o empréstimo).

Crédito pessoal com juros baixos ou mensalidade baixa? Veja as diferenças no nosso artigo.

Cuidado ao desistir de produtos associados ao spread

Não obstante todas estas cautelas, imaginemos que conseguiu um empréstimo com uma TAEG “à maneira” e, ainda por cima, com um spread “espetacular”. É muito importante não se esquecer das condições do contrato que permitiram tais indicadores.

Muito menos se subscreveu alguns produtos financeiros que permitiram baixar o spread (aplicações financeiras com risco ou seguros de proteção ao crédito muito raramente são boas opções).

É que a memória prega partidas e se, passado algum tempo, por variadíssimas circunstâncias, cair na tentação de extinguir alguns dos produtos associados ao spread (por vezes, até uma simples domiciliação da liquidação de algo que contratou ligado ao crédito), este pode subir e fazer a prestação mensal subir drasticamente.

Não raras vezes, o spread contratualizado pode já não ser o que está a pagar, seja por erro de outros ou por sua distração. Confirme sempre, periodicamente. Imprima uma rotina de confirmação (de alguns minutos) para sua salvaguarda.

Mesmo sendo algumas dezenas de euros mensais, multiplique por 12 e veja quanto poderá perder ao final de um ano. Sem qualquer necessidade.

Não cumpriu? O banco tem um ano para agravar o spread

Convém, por isso, estar de antemão convenientemente informado sobre o impacto do cancelamento – parcial ou total – dos produtos financeiros associados ao spread e/ou ao crédito durante a vigência do mesmo. E a melhor altura para fazer a pergunta é precisamente antes de assinar toda a papelada!

Se o cliente não cumprir com todas as condições previstas no contrato, o banco pode aumentar o spread, na dimensão do que ficou estipulado, mas tal agravamento tem um prazo para ser efetivado: um ano.

Se decorrerem 12 meses sem que a entidade financiadora não tenha aumentado o spread, com o fundamento atrás mencionado, ela já não o poderá fazer após esse período.

Obrigações e outras noções, básicas mas importantes

Já que estamos a falar de obrigações bancárias, e da ligação do spread à Euribor – com impacto direto nas subidas e descidas das prestações -, note que as instituições de crédito não podem rever o valor do indexante com uma periodicidade diferente do prazo contratualizado.

Ou seja, nos contratos em que a Euribor seja, por exemplo, a três ou seis meses (prazos mais frequentemente usados em contratos de crédito à habitação), o valor da taxa só pode ser revisto trimestral ou semestralmente, respetivamente.

Quer isto dizer que o valor da Euribor usado para as prestações em vigor nos três ou seis meses posteriores é calculado tomando como base a média aritmética simples do mês anterior – e a taxa é arredondada à milésima. E é por isto que vemos os montantes das prestações a subir e a descer constantemente, por causa de uma Euribor que está sempre a flutuar.

Dito isto, daqui resulta a importância de saber exatamente donde vêm os aumentos e as diminuições nas prestações de crédito, e é para isso os bancos são obrigados a manter os registos históricos do indexante utilizado para a taxa de juro, aos quais os consumidores podem aceder de forma simplificada e gratuitamente.

Há uma ESTER a fazer sombra à dupla Spread/Euribor

Não se assuste com o entretítulo. Pelo menos, para já. Habituados que estamos, em Portugal, a contratar empréstimos indexados à Euribor, quase nem demos pelos ventos de mudança. Mas eles já sopram.

Desde 2 de outubro de 2019 que a chamada Zona Euro tem uma nova taxa de juro de referência, a Euro Short-Term Rate (€STR). Mais empaticamente apelidada de ESTER.

E porque é importante falar da ESTER aqui? E o que ela tem a ver com a Euribor (que, lembre-se, faz dupla com o spread na determinação da taxa de crédito)?

Pois bem, sabendo nós que a Euribor traduz a taxa média a que as entidades bancárias se financiam (o custo do dinheiro), mas que tem as suas limitações, a ESTER foi desenhada de modo a espelhar o “custo que um banco tem de pagar quando obtém fundos pelo prazo de um dia (útil) junto de outros bancos ou de outras entidades financeiras – fundos de mercado monetário, fundos de investimento ou pensões e outros agentes financeiros, incluindo bancos centrais –, sem ter de dar uma garantia para obter esse financiamento”, como sublinha o Banco de Portugal.

A explicação tem muitos tecnicismos próprios da complexidade das operações bancárias de grande escala, mas, segundo o regulador português e europeu da atividade (o BCE), a ESTER é mais abrangente, inclusive em termos de “operações”, tem por base um maior número de bancos e faculta uma indicação “mais fiável” do custo dos empréstimos sem garantia na área do euro pelo prazo de um dia (útil).

Uma outra Euribor

A busca por maior “fiabilidade” e “referência” nas taxas de crédito, porém, não implica qualquer substituição da Euribor pela Euro Short-Term Rate. Para já (a complexidade técnica e legal da empreitada é um imenso icebergue e, a acontecer virá recheada muita discussão pública à escala planetária).

Todavia, sabe-se que vão existir alterações nos indexantes de referência dos empréstimos para a compra de casa. A partir de janeiro de 2020, a fórmula de cálculo da Euribor assume novos contornos.

De acordo com o supervisor bancário português, a nova taxa “deverá ser calculada, de forma mais robusta, com base em transações efetivas de obtenção de fundos no mercado monetário sem garantia do euro, por parte do painel de bancos contribuidores, junto de um conjunto alargado de contrapartes, quando disponíveis”.

Finte os efeitos colaterais da guerra dos spreads, para já

Garantias oficiais à parte, parece certo que a futura configuração da dupla Euribor (híbrida)/spread vai ditar novos valores nas prestações de muitos portugueses e cidadãos europeus.

E, como tal, a revisão que está a ser feita tem motivado um acompanhamento muito chegado de várias associações de consumidores, com receio de impactos negativos no bolso dos clientes bancários com empréstimos em curso.

Há, todavia, quem assevere oficialmente que não, que testes entretanto efetuados parecem ter indicado que, ajudada pela intervenção da €STR na nomenclatura do futuro cálculo, esta última é mais baixa que as Euribor. E que, portanto, resultará em prestações inferiores para os clientes.

Por estas e por outras, e para tornear metade das indefinições que vão campeando, vá pelo menos seguindo as nossas dicas e fintando os efeitos colaterais da guerra dos spreads, uma das variáveis da equação.

Como sugerimos sempre, para garantir que tem acesso às melhores condições de crédito, faça simulações online. Ao simular no Portal do Crédito, iremos analisar as suas necessidades específicas e, de acordo com o seu perfil, indicar a entidade com as melhores condições.

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Alberto Moreira
Alberto Moreira dedica-se à escrita e comunicação desde 1996. No Portal do Crédito, procura desconstruir e simplificar a linguagem financeira, tornando-a acessível a todos os cidadãos.